CIDADE
Enviado em 11/02/2010
O Progresso Veio de Trem
Por Jimmy e Marcelo Rodrigues
Preparo-me para escrever este texto especial, através da digitação do meu neto Marcelo em seu notebook. Acontece que no momento em que ele instalava aquele aparelho, que parecia coisa de outro mundo, faltou energia elétrica na área em que resido. Ocorre que o notebook usado é muito mais perfeito do que pode alcançar a nossa vã filosofia. É que ele dispõe de bateria, o que nos permitiu dar uma banana a estas companhias de energia elétrica. Lembrei-me, então, dos antigos lampeões a querosene que vi pela primeira vez na velha casa de madeira de minha avó materna, situada no chamado quadro da Viação Férrea.
E aí na minha memória octogenária começou a desenrolar-se um filme, que tento agora reproduzir sem o caráter de historiador, como o Gardelin, por exemplo.
Começa com o fato de eu haver nascido naquela área com frente para a Rua Marechal Floriano, onde acredito haver vivido os dias mais significativos da minha infância.
Um dia ouvi a conversa sobre a vinda do trem para ligar o antigo Campo dos Bugres à capital do estado. Como sou muito curioso, comecei a matutar sobre o que seria este tal de “trem”. Não me atrevi a perguntar o que era aquilo, com medo que achassem que eu era burro. Espichando os ouvidos para as conversas dos mais inteligentes e bem informados, fiquei sabendo que o trem era uma máquina movida à lenha e carvão de pedra, ou seja, a vapor. Embora, não se trate de vapor que ande no mar.
Eu morava com minha avó Ana, uma senhora gorducha casada com Bento Vilas Boas, que era justamente o maquinista do trem. Ele, porém, morreu prematuramente em outra cidade. E agora? O casal tinha cinco filhos, três mulheres, entre as quais a minha mãe, e dois homens. Naqueles idos tempos não havia esta coisa de “leis trabalhistas”, de “institutos de previdência” e outras modernices. Minha avó teve de criar sozinha os seus cinco filhos. A direção da Viação Férrea, num belo gesto de solidariedade humana, arranjou um emprego para a minha avó: cuidar do locomóvel que bombava água potável de um poço, próximo ao açude que havia no terreno, para a caixa que ainda hoje se pode ver ao lado da Estação da Ferrovia, próximo ao antigo Moinho Germani, na Rua Dr. Casagrande.
A água assim transportada destinava-se a abastecer os trens e os vagões de passageiros. Entre a caixa d´água e o açude, havia um acentuado declive. Acreditem ou não, minha avó, com a força dos seus braços robustos e a tenacidade dos alemães de que era descendente – Franz – carregava em um carrinho de mão a lenha e o carvão de pedra, que era desembarcado lá em cima, onde ficavam os trilhos.
Lá em baixo este combustível fazia funcionar o locomóvel. Dona Ana sentava-se na frente da máquina, e enquanto lia a Bíblia em alemão controlava o mostrador da pressão.
Isto e tantas outras coisas do passado, de exatamente cem anos em diante, ficaram na minha - hoje precária - memória, graças ao fato do notebook do meu querido neto Marcelo possuir “baterias de lítio”, que escrevem no escuro e mesmo quando falta energia elétrica...
