Revista Acontece Sul

UM CARRO PARA NÃO CHAMAR DE SEU

Por Setor Automotivo - José Carlos Secco em Economia e Negócios - sexta, 18 de maio de 2018

Cada vez mais, os jovens estão trocando o desejo do primeiro carro por diversos outros interesses e vontades. Não é de hoje e já vem acontecendo há algum tempo. Aquela expectativa louca de tirar a carteira de habilitação assim que se completa 18 anos simplesmente não existe mais. E quem acha que presentear o filho com um automóvel no aniversário de 18 anos será o máximo e arrancará gritos e suspiros de emoção, melhor pensar de novo.

Mas o que está acontecendo? De certa maneira, nada demais. Tudo tem o seu ciclo e, de tempos em tempos, precisa ser renovado. Inclusive o carro e sua forma de ser visto (e de ser adquirido) pelas pessoas.

Já havia comentado que o fascínio que o carro ajudava a causar nas mulheres mudou (ou sumiu). Também que a sua imagem não ocupava mais o primeiro lugar na “Billboard”. Pelo contrário, até um pequeno iPhone X, para muitos jovens, causa mais excitação do que um novo modelo de carro.

Mas vamos ao que importa. Como será o mercado nos próximos anos? Quantos vão comprar ou desejar comprar o “seu” carro? As boas notícias são: primeiro, os automóveis continuarão a ser comprados. Por empresas, por grupos, por menos indivíduos, mas continuarão a ocupar as ruas. Dar, dá, mas não será ainda, no curto prazo, que veremos as pessoas vivendo sem ir e vir de automóvel. No Brasil, por características diversas, essa adoração e estreita dependência ainda vai durar muito mais, mas já não é e nem será a mesma.

Outra boa notícia para a sociedade: quanto menos desejo de possuir um automóvel as pessoas tiverem, mais facilmente vão enxergar as diversas e diferentes opções de locomoção, quer seja na cidade ou em viagens. Desde Uber até carsharing. Mas o mais importante é a oportunidade que o transporte coletivo continua tendo para convencer os usuários e os potenciais novos usuários de suas vantagens e benefícios. Se eu já não tenho tanto impulso para comprar um carro, fica mais fácil entender e avaliar outra opção como ir de ônibus, de metrô, de carona, etc.

Os jovens de hoje já não tiram carteira de habilitação aos 18. Não é prioridade. Pode ser mais tarde, aos 20, 21 anos ou mais. Sem carta e sem carro, precisa escolher outra forma de locomoção. Quanto mais eficiente, de qualidade e barata, mais atraente.

Por tudo isso, alição de casa e má notícia é que a forma de atrair o comprador precisará ser muito diferente da atual e o próprio produto, se adaptar a este novo consumidor (ainda não totalmente definido e convicto). Descontos serão somente mais um detalhe. Mas caberá ao pessoal de desenvolvimento de projeto e de marketing antever o que este consumidor vai querer e sem o que ele não fica. Será também uma questão de atendimento: este produto me atende e não preciso mais do que isso.

Continuo adorando automóveis, mas vivo cada dia mais sem eles (e muito bem). A sensação ainda é estranha, principalmente a de não possuir um, mas não ser dependente (e ter outras opções) é por si só uma expressão de liberdade e mudança. O carro precisa descobrir como ser novamente imprescindível, se ainda puder ser visto assim.

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