Revista Acontece Sul

Um conto de Natal

Por Gastronomia - Mateus Nora Ferreira em Gastronomia - sexta, 22 de dezembro de 2017

Natal é tempo de alegria, hora de reunir os entes mais queridos e os mais chatos também. É uma época de muito amor. Nossos corações estão mais receptivos e harmoniosos com esperanças renovadas... Mas não para um cozinheiro. E foi num natal, ao qual eu carinhosamente chamo de “feriado do descontentamento”, que descobri a verdade de uma profissão. 

Esse dia começou triste e deixou sua marca para todo o sempre. Descobrir que o Papai Noel não existe foi fácil perto disso, afinal esse cara era muito “liso” por conseguir entrar e sair sem ser visto, as crianças começam a desconfiar. Ninguém gosta de ficar sozinho numa época como essa, contudo trabalhar também não é a melhor coisa do mundo. Então eu desci, desci e desci, e lá embaixo que tudo começou, no porão onde eram feitos o pré-preparo para o serviço. Quando se é um estagiário você sempre fica com as piores funções e no caso de um restaurante de hotel é: cortar, porcionar, pesar, embalar e etiquetar tudo, e o “tudo’’ pode ser 30kg de camarão ou 50 unidades de frango. 

A ideia de ser um chef celebridade já estava começando a parecer meio distante, mas tudo bem, estava realizando meu sonho, o até então cozinheiro baixou a cabeça e pegou a próxima caixa de camarão e se pôs a trabalhar. Nesse exato momento lembrei de uma ex-namorada que adorava frutos do mar, me dei conta que já fazia pelo menos dois meses que não tinha um encontro, queria mostrar serviço, fiz todas as horas extras que podia. Em resumo, enquanto eu descansava o resto do mundo trabalhava e quando eu trabalhava o resto do mundo se divertia, mas tudo bem. Nada supera fazer o que ama. Dalai Lama já dizia que quando se é feito com amor não é trabalho, e é saudável ainda. Saúde, um bom tópico para se preocupar, um cozinheiro de carreira não come bem como todos pensam. Sem horário fixo para refeições, ele passa o dia inteiro apenas na base do café e petiscos, quase nunca senta pra comer, assim acaba por prejudicar sua saúde e seu humor. Diabetes, alto colesterol, níveis absurdos de tireoide e hipertensão são algumas das enfermidades, sem contar a coleção de alergias a qual transforma o vestiário em um consultório médico cheio de trocas de informação sobre tratamentos dúbios e remédios centenários.

A uma certa altura do dia começaram a entrar pedidos, tá na hora do serviço. Depois de metade do expediente abandonado em uma sala, estava na hora da ação, foi uma noite alucinante, essa parte não tem como reclamar é pura adrenalina. Após servir a última sobremesa já estava meio dopado, um pouco nervoso, sentindo fome e ao mesmo tempo não. A multidão no salão aproveitava a festa pelo que notei nas poucas vezes ao qual conseguia espiar através da boqueta onde eram entregue os pratos. E foi lá que me dei conta que o convívio social; família, amigos, diversão, natal, páscoa, feriados e datas especiais são algumas coisas na vida que perderei. Afinal, este que vôs fala estará dentro da cozinha se cortando, queimando e falando palavrões que nunca falaria na frente de sua mãe. Aí veio a uma depressão parecendo um vórtice sugador de tristeza natalinas, eu busco distrações das minhas aflições, quem sabe uma cerveja, ou uma conversa com deus, mas no meu caso, foi uma pia cheia de louça. Mas é a função dele lavar a louça? 

Amigos leitores, se lava muita louça numa cozinha, não importa o seu cargo. Ainda era cedo para o natal, sem mais nada para fazer, continuava sentindo um vazio impreenchível, foi quando pensei no quadro das escalas, só o que podia me consolar era uma grande comemoração etílica no final do ano. Opa! Estou na brigada do ano novo. Foi nesse momento que passei a odiar os feriados e tudo que eles representavam, comecei a preferir o Krampus ao bom velhinho. 

Quer se tornar chef de cozinha? Desista enquanto há tempo! O ditado “Sangue, suor e lágrimas” certamente foi criado por um chef, só permanece no ramo gastronômico aqueles que amam a profissão e estão dispostos a sacrificar suas vidas em favor da boa comida. Foi muito duro, mas eu faria tudo novamente. O faria porque me considero um apaixonado por esse ramo. E foi por causa daquela noite que descobri isso. Foi lá que me tornei o profissional que sou hoje. Meu maior presente de natal é ver o sorriso que o cliente dá logo após a primeira garfada de um prato feito com essas mãos. Mas a propósito, continuo odiando feriados. 

Aqui eu deixo um feliz feriado do descontentamento, digo, Feliz Natal.

Comentários