Revista Acontece Sul

Fernando Bedin

Por Valquíria Vita - TXT Produção de Conteúdo em Lado B - sexta, 18 de maio de 2018

A carreira do jornalista após um  AVC que, entre tantas sequelas, lhe tirou a capacidade de escrever, mas não o talento para planejar um futuro como gestor de comunicação

 

“Ele pegou a minha mão e colocou no peito dele: ‘Olha, Bea! Olha como tá o meu coração”, conta Beatriz Bedin, sobre a emoção com que o marido, Fernando Bedin, recebeu a notícia de que iria ser o personagem do Lado B desse mês. Nos dois dias que se passaram até essa entrevista, a euforia deu lugar ao medo: de não ter história para contar e, acima de tudo, de não conseguir contá-la. Desde um AVC, em 2014, que comprometeu gravemente sua fala e articulação de ideias, o jornalista teme não ser compreendido. Ao contrário do que sente, Bedin tem, sim, uma bela história para contar. E hoje se faz entender melhor do que pensa.

Fernando é o sétimo filho de uma família com oito irmãos, todos nascidos em Caxias. “Na ponta da mesa, o pai, Alfredo. Do lado direito dele, nessa ordem, a mãe, Maria Ide (a Dona Idê), e as meninas: Isabel, Tereza, Eliana. Na outra ponta, o irmão mais velho, Luiz Ricardo (já falecido). Do lado de cá: Roberto, André, Felipe e eu, do lado do pai”, remonta Fernando a mesa com o lugar sagrado de cada um.

Para sustentar a “casa com cinco quartos” e dez pessoas, Alfredo trabalhava no armazém da família, “daqueles antigos, que vendiam tudo” e, depois, no Pastifício Caxiense. Dele, Bedin guarda a imagem de um homem reservado e amoroso com a família; de um avô ao qual filhos e netos recorriam para ter auxílio com as redações da escola e, especialmente, de um talentoso artista que não teve um reconhecimento à altura da sua obra. “Nunca vendeu um quadro. Uma vez ele até colocou uma placa na casa: ‘Vendo quadros’. Nunca apareceu ninguém pra comprar. Nós, a família mesmo, também não dávamos o devido valor. Fomos perceber o quanto aquilo era grande já adultos”, conta Bedin, que viu o pai pintar até o fim da vida, em 2000, um acervo com mais de 8 mil obras, parte delas publicadas em um livro, organizado por Bedin, em 2007: Alfredo Bedin: Memória e Arte Caxiense.

Alfredo era talentoso também na escrita. “Era um romântico. Eu teria um livro pronto só de cartas e poesias que ele escrevia para a minha mãe”, conta Bedin. “O amor deles era uma coisa linda. Era bonito vê-los juntos: ela lavando a louça, ele secando; ele sovando o pão, ela preparando”. Dona Idê, falecida em março deste ano, aos 92 anos, retribuía o amor do marido e o multiplicava pelos oito filhos. Nunca trabalhou fora mas fazia todo o tipo de artesanato e bolos para ajudar no orçamento da família. “Era uma mãe do lar, amável, especial. Eu amo tanto a minha mãe...”, emociona-se Bedin. “Ela era igual com todos os filhos. Para ter uma ideia, quando casamos, ela ainda penteava o cabelo do Fernando”, lembra Bea.

UM GESTOR DA COMUNICAÇÃO

Recém-casado com Bea, em 1986, Bedin foi a São Paulo assumir a gestão comercial de uma empresa do setor de materiais elétricos. Depois de seis anos na função, e de passar por outra empresa do mesmo ramo, também em São Paulo, Bedin voltou a Caxias, já com a filha Gabriela. Aqui tratou a depressão ocasionada por anos de trabalho excessivo e de longas viagens pelo país, e logo entrou no ramo da comunicação como gerente comercial da Rádio Caxias e outras três emissoras: 1010, Studio e Antena 1. “No primeiro mês de trabalho, já tivemos a oportunidade de fazer grandes melhorias na administração da rádio”, lembra Bedin.

Na mesma época,  ingressou no curso de Jornalismo na Unisinos e formou-se sem a pretensão de atuar em redação. “Eu era apaixonado pela gestão da comunicação, por pensar em projetos, em planejamento, em programação. Gostava de tocar o negócio”, conta Bedin. A mesma paixão o levou, depois de 10 anos de Rádio Caxias, a trabalhar no Jornal Tempo Todo, de Paulo Cancian, e, mais tarde, a convite do próprio, a assumir como gestor na UCS TV e rádio. “Eu adorava aquele trabalho. Era um santuário, uma igreja para mim.

O AVC

No dia 11 de junho de 2014, enquanto conduzia a única filha, Gabriela, à faculdade de Medicina, Bedin travou. A filha percebeu os sintomas do AVC, chamou o resgate e, logo na primeira vez que viu o pai no hospital, percebeu que a vida da família mudaria drasticamente. “Eu não entendia o que acontecia comigo. Não entendia por que estava de fraldas. Falava com todos (eu achava que estava falando) e ninguém entendia nada do que eu dizia. Para mim, eu estava falando normalmente”, recorda.

Um áudio gravado com Bedin lendo uma correspondência, logo na primeira fase de recuperação, mostra uma fala completamente comprometida: sem uma palavra compreensível sequer. Hoje, quatro anos depois do AVC, é possível compreendê-lo bem, mas ainda há dificuldades na comunicação. Além da fala, Bedin tem dificuldades motoras, trata-se de depressão, sente fortes dores de cabeça e luta diariamente com a dificuldade de articular as ideias e fazer a voz expressar o que, internamente, lhe parece muito claro, mas, para quem ouve, às vezes não faz sentido algum.

A mulher, Bea, passou a ser uma companhia diária, como braço de apoio, como acompanhante em uma série de especialistas – médicos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos… – e símbolo de um amor muito maior do que ele jamais poderia supor. “Não existe uma pessoa melhor que ela. Eu não consigo pensar em um nome para o que eu sinto. Ela é tudo para mim”, diz Bedin.

É com ela e com a filha Gabriela – que cursa o último ano da residência médica – que Bedin, hoje aposentado, divide as pequenas conquistas e o seu maior projeto desde o AVC: a página Diário Pós-AVC no Facebook, onde ele grava vídeos contando sobre a sua recuperação, dando apoio a outras pessoas e aliviando a dor das famílias em recuperação. A rede social é também um exercício para ele, que tenta, copiando e postando textos, reaprender a escrever. “O AVC me fez esquecer tudo. E eu tive que aprender tudo de novo”, conta. “Eu queria poder escrever para essas pessoas que me acompanham na página. Mas não consigo. Não consigo expressar escrevendo o amor que tenho por cada um”, explica Bedin.

Ainda que não considere suficiente a comunicação que oferece – talvez pelo nível de exigência de um gestor de comunicação – Bedin é referência para milhares que o acompanham na página, com alto fluxo de interação: em geral, em busca de conforto e de uma palavra de otimismo. Além de buscar investidores para que a página possa crescer e atender a um público maior, o jornalista tem outro item importante no seu novo planejamento de vida: “Meu sonho é voltar a escrever!”



 

 

 

 

 

 

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