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CIDADE

Enviado em 11/07/2011

Leovegildo Frigeri

Estudo, trabalho e cultura como fórmula segura para a realização

Por Marcos Kirst

Neurologista caxiense revela que a construção de uma carreira sonhada na infância decorre do esforço empregado naquilo que se acredita

Jornais e revistas na sala de espera e livros técnicos em inglês sobre medicina na estante às costas da cadeira do especialista são normalmente as únicas publicações que se encontra em um consultório médico, seja da especialidade que for. No consultório do neurologista caxiense Leovegildo Frigeri, porém, outra espécie de seres impressos também habita de forma abundante toda a área física circundante: os livros de literatura, de poesia, de ensaios, de filosofia e de história. Apaixonado desde a infância pela leitura e pela formação pessoal e humana capaz de ser obtida por meio dela, Frigeri elege o ato de ler como um dos componentes essenciais de seu perfil, e atende aos pacientes em uma sala onde a pilha de livros com títulos instigantes se faz presente sobre a mesa, despertando a atenção do eventual interlocutor que compartilhe com ele o interesse.
Frigeri é natural de Bom Jesus, onde nasceu em 18 de agosto de 1948, o segundo dos cinco filhos do comerciante Claudio Frigeri e de Maria Frigeri. “Mas o Aparados da Serra consta só na certidão, porque, quando eu tinha um ano de idade, meus pais se mudaram para Caxias do Sul, e me considero mesmo é um caxiense”, ressalta o médico. A vocação para a medicina surgiu ainda na época de criança, quando o menino Léo se encantava com a atividade exercida pelos médicos de família, que atendiam os pacientes nas próprias residências. “Aquilo me chamava muito a atenção, e logo eu percebi que queria ser médico quando crescesse, e foi o que aconteceu”, recorda.
O sonho de infância começou a tomar forma no mundo real aos 17 anos de idade, quando passou no vestibular na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Ciências da Saúde da Santa Casa de Porto Alegre. Mais tarde, especializou-se em Neurocirurgia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). A opção pela especialização na área neurológica surgiu precocemente, já na primeira aula que teve de Neuroanatomia. Frigeri tem uma vida pautada por certezas e convicções, que orientam e cimentam os rumos que trilha. Formou-se em 1972, aos 23 anos de idade, e hoje possui tríplice titulação na área em que atua, com títulos em Neurologia Clínica, em Neurocirurgia e em Neurofisiologia, sendo membro da Academia Brasileira de Neurologia. Detalhista, calcula que, em seus quase 40 anos de atividade profissional, já atendeu a mais de 60 mil pacientes, o equivalente à população de uma cidade de porte médio.
O primeiro emprego, quando ainda era estudante de Medicina, surgiu por meio da aprovação em concurso para a função de bolsista no Hospital de Pronto-Socorro de Porto Alegre. No currículo, constam ainda aprovações em dois concursos para a Faculdade de Medicina da Universidade de Caxias do Sul (UCS) nas áreas de Clínica Médica e Neurologia. “Não exerci a atividade de professor, pois fiz os cursos com a finalidade de obter as titulações”, esclarece.
Possui hoje uma extensa lista de trabalhos científicos na área da neurologia publicados. Entre as diversas atividades a que se dedicou, consta a participação na implantação do programa de residência médica no Hospital Pompéia em Caxias do Sul. É chefe do serviço de neurocirurgia e coordenador do programa de residência médica em neurocirurgia na mesma instituição, onde exerceu o cargo de diretor clínico e técnico durante nove anos, de 1993 a 2002. Na Unimed, foi coordenador da especialidade de Neurologia e Neurocirurgia e, na Unicred, foi um dos fundadores e o primeiro diretor-administrativo da entidade. Em sua trajetória, consta ainda o cargo de diretor de quatro laboratórios de eletroencefalograma, no Hospital São Carlos (em Farroupilha), no Hospital Pompéia, no CES da Prefeitura de Caxias do Sul e na Neuroclínica Frigeri.
Uma personalidade que Frigeri evoca sempre que possível, como alguém cuja biografia e posturas admira, é o neurocirurgião austríaco Eric Kandel, ganhador do Prêmio Nobel de Medicina em 2000. Neurocientista da Universidade de Colúmbia, em Nova York, Kandel construiu as bases de uma nova ciência da mente, uma conjunção entre psicologia comportamental, psicologia cognitiva, neurociência e biologia molecular. Conforme Frigeri, seu livro, “Em Busca da Memória”, é um marco. “É leitura obrigatória a todos os profissionais que atuam na área”, sustenta. Com base nas afirmações do próprio Kandel, Frigeri revela que acalenta o sonho de um dia ver neurologistas, psicólogos, neurocirurgiões, psiquiatras, psicanalistas e neurofisiologistas atuando juntos, sem resistências, trocando informações. “Temos muito a aprender uns com os outros, sobre os mecanismos que regulam o comportamento e a mente humana. A disputa sobre o que explica o comportamento, se é a biologia cerebral ou a educação, terminou empatada há muito tempo. São as ambas”, defende o pesquisador.
Frigeri encontra na instituição da família um dos maiores pilares de sustentação e sentido na vida de um cidadão. “Ela torna todas as coisas muito valiosas e é um importante estímulo para seguir em frente”, define. Em termos de projetos para o futuro, o médico tem uma visão bem clara: “quero ser neurologista até o último dia da minha vida. Sempre trilhando caminhos de inquietude intelectual, procurando novos conhecimentos, em todas as áreas”, atesta. O ecletismo de seus interesses fora das especificidades da profissão a que se dedica dá uma mostra de que “inquietude intelectual” não é apenas uma figura retórica no discurso de Leovegildo Frigeri – ou Léo, conforme afirma ser conhecido no círculo familiar e de amigos.
Quando o assunto gira em torno de suas opções de lazer, o primeiro item a ser evocado é a literatura e os livros. Mas Frigeri não se limita a elencar títulos de obras que marcaram ou nomes de autores preferidos. Ele vai além, e discorre sobre as reflexões advindas de cada leitura, sobre as qualidades narrativas dos autores, os temas abordados. Palestras que aprecia empreender com os amigos em encontros sociais, sempre debatendo cultura. Circular por livrarias é uma de suas paixões, bem como por cafés literários. Em seu consultório, não é apenas sobre a mesa de trabalho que os livros de leitura se apresentam, ao alcance da mão. Nas salas contíguas, as prateleiras das estantes abrigam democraticamente instrumentos de trabalho, obras científicas e literatura.
“A Verdade das Mentiras”, do recentemente nobelado escritor peruano Mario Vargas Llosa, é um dos títulos que está ao alcance da mão do médico, e que se caracteriza por ser uma de suas mais marcantes leituras recentes. “Gosto desse livro porque ele nos ensina que a ficção é a arte de dizer a verdade e, graças à literatura, se entende e se vive melhor a vida. O capítulo ‘O chamado do abismo’, que analisa a obra ‘Morte em Veneza’, de Thomas Mann, é simplesmente fantástico”, exemplifica. Entre os autores de sua preferência, desfilam ainda Dostoiévski, Ernesto Sábato, Gabriel García Márquez, Albert Camus, Fernando Pessoa, Jorge Luis Borges e outros. Leitor quase compulsivo, revela ler todos os dias, como hábito realmente incorporado a seu cotidiano.
O manuseio da obra “O Clube do Filme”, em que o autor canadense David Gilmour relata como conseguiu reconstruir sua relação com o filho de 15 anos por meio de sessões conjuntas de filmes em casa, evoca em Frigeri a paixão que também nutre pela sétima arte. “Se me pedires para citar somente um filme que me marcou, não tenho dúvidas: é ‘Amarcord’, de Federico Fellini”, revela. Também encantou-se pela recente película argentina “O Segredo dos teus Olhos”, de Juan José Campanella. “Além de apreciar frequentar restaurantes, gosto muito do ritual de ir ao cinema e ao teatro”, complementa. Em relação à música, ressalta, na ponta da língua, dois compositores de sua preferência: Tom Jobim e o argentino Astor Piazzola.
Se não fosse apaixonado pela profissão que exerce, Frigeri confessa que certamente seria um vitivinicultor, tamanho o encanto que acalenta pela arte da vinicultura. “Eu teria um parreiral e cultivaria uvas para a produção de bons vinhos”, afirma. O mundo do vinho também exerce fascínio sobre o neurologista, que cultiva o hábito de não só apreciar os produtos, mas ler e estudar sobre a história do vinho através dos séculos, o que também serve de insumo para as conversas com os amigos. “Fiz alguns cursos de degustação, mas não sou um ‘enochato’, e, sim, um ‘enoapaixonado’’’, diverte-se.
Cultura, no entanto, não é um tema que o médico evoca somente para explicitar interesses pessoais. Em sua visão de mundo, esse é um dos aspectos cruciais para a transformação do cidadão e das próprias localidades. “Caxias do Sul evoluiu muito em todas as áreas nas últimas décadas, inclusive no aspecto cultural, o que é ótimo para todos”, reflete Frigeri. Para ele, a solução para o Brasil resume-se em três palavras: “educação, educação e educação”. Conforme ele, “se a maior parte dos impostos fosse para a educação, ainda assim seria pouco, pois o custo do não saber é incalculável’. Frigeri é a prova viva de que a dedicação à concretização dos sonhos por meio do estudo, do trabalho e do cultivo da cultura é capaz de fazer a diferença.

 

 

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