LADO B
Enviado em 05/10/2011
Antonio Roque Feldmann:
Trajetória Pautada pela Superação de Desafios
Por Marcos Kirst
Secretário municipal da Cultura tem a biografia marcada por análises periódicas de vida que resultam na guinada drástica de rumos em busca do aprimoramento pessoal
O início da primavera em Caxias do Sul costuma trazer, junto com as temperaturas mais amenas e o brilho da luz solar, também a Feira do Livro, que adorna anualmente a Praça Dante Alighieri com o universo da literatura, promovendo cultura e instigando o aprimoramento pessoal de cada cidadão. É por esse cenário - em atividade desde 30 de setembro até 16 de outubro - que circula com desenvoltura o secretário municipal da Cultura, Antonio Roque Feldmann, satisfeito com o resultado de um trabalho em favor do livro e da literatura que é desenvolvido ao longo de todo o ano, por meio do Programa Permanente de Estímulo à Leitura (PPEL), órgão ligado à Secretaria, coordenado por Luiza Motta. Transformar a cultura em um anseio permanente da comunidade, a ser vista como necessidade vital de cada um e não apenas como lazer, é um dos desafios que movem Feldmann desde que assumiu a pasta, em 2006, na administração do prefeito José Ivo Sartori.
Desafios, aliás, pontuam a trajetória deste ex-seminarista e jornalista nascido no interior de Guaporé em 17 de setembro de 1968. Desde muito cedo, as encruzilhadas da vida interpuseram em seu caminho decisões que lhe exigiram longos períodos de reflexão pessoal buscando encontrar o melhor rumo a ser seguido. A julgar pelo posto que ocupa na administração do maior município do interior do Rio Grande do Sul e pela projeção que seu trabalho vem alcançando, parece ter tido a inspiração para trilhar caminhos de sucesso. O primeiro dos quatro maiores desafios de sua vida, conforme ele mesmo pontua, se deu quando tinha 13 anos de idade, ao decidir deixar a casa paterna, em Bento Gonçalves, para onde a família havia se mudado, e ingressar no Seminário em Caxias do Sul.
“Havia uma grande expectativa entre meus pais e minha família em geral que ao menos um entre nós, que éramos oito irmãos, se tornasse padre, e essa missão acabou caindo para mim, que sou o quinto mais velho”, explica o secretário. Na época, o garoto Antonio, de 13 anos de idade, sentiu o peso do mundo ao ter de sair da zona de conforto representada pelo núcleo familiar e enfrentar sozinho a cidade grande que já era Caxias do Sul no início da década de 80. De qualquer maneira, estaria ingressando na condição de interno no Seminário Nossa Senhora Aparecida para estudar, e o ambiente escolar lhe representava um lugar seguro desde seus primeiros instantes de vida. “Meu pai era professor estadual em escolas do interior em Guaporé e depois em Bento Gonçalves. Naquela época, os professores que lecionavam em escolas rurais residiam com suas famílias na própria escola, e eu nasci mergulhado nesse ambiente de estudo, que sempre foi muito significativo para mim”, relata Feldmann. “Antes mesmo de estar em idade de frequentar a escola, eu já vivia na escola e, o que era mais importante para mim na época, participava sempre ativamente da hora da merenda”, brinca.
Antonio é filho de Nilo José Feldmann (hoje com 77 anos) e Zulmira Casagrande Feldmann (já falecida). A família, católica, era muito religiosa e desde cedo foram repassados aos filhos valores como a importância do trabalho e da formação pessoal. Quando Antonio tinha dois anos e meio de idade, o pai foi transferido para uma escola em Bento Gonçalves e mudou-se para lá com toda a família. Ali, o jovem Antonio aprende cedo a importância do trabalho, dedicando-se a atividades que hoje elenca com indisfarçável orgulho: “Já fui picolezeiro, engraxate, vendedor de ramos de oliveira para os fiéis nos domingos de ramos, vendedor de macela na Páscoa e fui também coroinha do padre e poeta Oscar Bertholdo, que inclusive fez a minha primeira comunhão, em Bento Gonçalves”.
Foi no Seminário em Caxias do Sul que Antonio Feldmann viu despertar em si sua verdadeira vocação: o jornalismo, ao invés da vida sacerdotal. Suas primeiras experiências na área se deram ajudando o padre Paulo Gasparetto a fazer o Jornal da Diocese, uma das atividades ligadas à Pastoral da Comunicação. Permaneceu no Seminário até concluir os estudos relativos ao primeiro e segundo graus e, nesse momento, começou a vivenciar uma crise pessoal relativa à existência ou não de vocação para seguir a vida religiosa, que era, em última análise, um desejo de seus familiares, mas não seu. “Foi um período muito angustiante, pois eu tinha receio de frustrar os anseios de minha família, ao mesmo tempo em que sentia que não era aquele o caminho que eu queria seguir”, recorda.
Ainda em meio a essa crise, Antonio, em 1988, foi a Caravaggio, em Farroupilha, para fazer o Curso de Propedêutica, que significava fazer um estágio de um ano, cursando Filosofia. “Vivi profundos questionamentos internos, que compartilhava com vários padres, buscando respostas a meus questionamentos. Entre eles, dom Paulo Moretto e dom Benedito Zorzi”, revela. Quem lhe deu uma luz importante para solucionar a crise que estava vivendo e ajudá-lo a enfrentar seu segundo desafio mais importante da vida – que significou sair do seminário – foi o irmão marista Luiz Benício, que lhe disse: “Você tem de buscar aquilo que você deseja, e não aquilo que os outros desejam para você. Busque aquilo que faz feliz a você, porque um dia, será só você e a realidade que você criou para si mesmo”.
Frente a isso, permaneceu apenas meio ano em Caravaggio e decidiu retornar para Bento Gonçalves, onde começou a trabalhar em jornais locais, como o “Semanário” e a “Gazeta em Dia”. Ali, começou a surgir o repórter de verdade, escrevendo matérias, entrevistando pessoas, tirando fotografias, fazia assinaturas, entregava jornal, comercializava anúncios, enfim, vivenciando o cotidiano real de uma redação jornalística. No final de 1989, retornou ao Seminário em Caxias do Sul para terminar sua formação em Filosofia, aulas que cursava na Universidade de Caxias do Sul. Em 1991, fez vestibular para a histórica primeira turma de Jornalismo na UCS. Pouco antes de ser aprovado no vestibular, reuniu coragem e foi pedir emprego no jornal “Folha de Hoje”, diário que na época integrava o Grupo Triches, e foi admitido como setorista de Esportes. “Paulo Cancian e Antônio Braga foram os jornalistas que me contrataram”, relembra Feldmann.
Estudando na UCS pela manhã e trabalhando no jornal à tarde, Feldmann formou-se jornalista em 1995. Um ano antes, porém, enfrentou o terceiro momento crucial de tomada de decisão que lhe marcou a vida, ao receber uma proposta para sair da “Folha de Hoje” e assumir o posto de editor de Economia no jornal “Pioneiro”, que havia sido adquirido da família Conte pela RBS, em 1993. “Aceitei, e acompanhei um momento de transição importante no Pioneiro, quando a equipe de jornalistas produzia a edição normal diária para ir às ruas e, feito isso, ficava até de madrugada produzindo jornais-piloto (testes) com o novo conceito gráfico, moderno e colorido, que a RBS logo estaria estreando”, lembra o secretário.
Pouco tempo depois, Feldmann assumia a editoria de Política, coordenando a cobertura das eleições municipais de 1996 e algumas vezes atuando como interino do jornalista Renato Henrichs, que então assinava a coluna “Mirante”. Terminada a campanha eleitoral, surgiu o quarto grande desafio na vida de Feldmann, materializada com o convite que recebeu do então deputado estadual José Ivo Sartori para ingressar na equipe de seus assessores políticos. “Foi outro grande momento de dúvida e de muita reflexão, pois significava deixar o jornalismo e ingressar em uma área na qual eu antes jamais havia pensado em atuar”, analisa Antonio Feldmann.
Aceitou o convite, especialmente motivado pela perspectiva de enfrentar novas situações e sair de uma posição estável em que pouco poderia crescer. Sair da zona de conforto, impondo-se novos horizontes, acabou se transformando numa característica pessoal motivadora das guinadas de rumo do atual secretário municipal de Cultura. Em março de 1997, saiu do jornal “Pioneiro” para assessorar Sartori em Porto Alegre, na Assembleia Legislativa, atuando junto à Coordenadoria de Comunicação. A partir dali, acompanha a trajetória de José Ivo Sartori, que passou por cargos como presidente da Assembleia Legislativa, deputado federal em Brasília e, desde 2004, prefeito de Caxias do Sul, período em que Feldmann primeiramente assumiu o cargo de coordenador da Assessoria de Imprensa da Prefeitura e, posteriormente, a titularidade da Secretaria Municipal de Cultura, onde segue até hoje. Sua experiência na campanha eleitoral para a prefeitura de Caxias do Sul em 2000 resultou na feitura de um livro, que Feldmann publicou em 2002: “Eleições 2000: Uma Disputa Que Não Terminou”, pela Editora Maneco.
Toda essa intensa atividade política e profissional, no entanto, não é suficiente para afastar Antonio Feldmann de outros valores herdados da educação recebida dos pais, ainda em seus primeiros tempos de vida, como o apego à leitura, à necessidade constante de informar-se e aprimorar seus estudos e a importância da família. Quanto a esse último ponto, Feldmann começou a formar sua própria família ao casar-se com Gisleine Reis da Rosa Feldmann, em novembro de 2000, em cerimônia realizada na Igreja de Nossa Senhora de Lurdes. Da união nasceram duas filhas: Sabrina Reis Feldmann, de 10 anos, e Manuela Reis Feldmann, com 10 meses. “Sou uma pessoa feliz e realizada, com três mulheres em casa me cuidando, o que é uma bênção. Na verdade, se eu quiser mandar alguma coisa em casa, precisa ser por decreto-lei ou por medida provisória, porque do contrário, se for por votação, eu sempre perco”, brinca.
Mas o jornalista continua vivo em seu espírito. Diariamente lê os jornais locais e estaduais em busca de notícias e escuta rádios AM, sempre em busca de informações, inclusive pela internet. “Sou viciado em notícias. Vejo poucos filmes e escuto pouca música, mas estou sempre buscando notícias”, confessa. Por obrigação de ofício e também por interesse, dedica-se à leitura de revistas mensais culturais e está lendo livros de pensadores atuais que se debruçam sobre questões sobre o perfil da sociedade moderna e as tendências da cultura ao redor do mundo.
O perfil inquieto e a busca por novos desafios, porém, são elementos que continuam levitando em torno de seu cotidiano. Sua trajetória de quase 15 anos atuando nos bastidores da política parece estar sinalizando a chegada da hora de ousar voos mais longos e ousados, como a busca por um mandato eletivo. Perguntado a respeito, não se furta de admitir que sim, que esse dilema começa a ficar cada vez mais forte em seu íntimo, revelando a chegada de um quinto desafio crucial em sua carreira. A conclusão a que Antonio Feldmann chegará a respeito dessa nova encruzilhada pode ter resposta em algum dos próximos períodos eleitorais que se aproximam. Aguarde-se notícias.
