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LADO B

Enviado em 18/03/2011

Astor Schmitt:

Valores Sólidos na Pavimentação de uma Trajetória de Sucesso

Por Marcos Kirst

No interior da cidade gaúcha de Vera Cruz, região fumageira do Rio Grande do Sul, na metade da década de 40 do século passado, um menino de cerca de cinco anos de idade, calças curtas e joelhos sujos de terra, abria pequenas picadas com a enxada que sempre estava à mão e brincava de construir estradas pelas quais trafegariam os caminhõezinhos de madeira que ele próprio construía. Perfeccionista e já municiado de espírito empreendedor, não se contentava com as simples estradas de terra de chão batido e “asfaltava” as suas rodovias de brinquedo com óleo queimado de caminhão, que buscava junto ao local onde o pai, motorista de profissão, guardava os veículos por meio dos quais ganhava a vida e sustentava a família.
É nessas antigas reminiscências de infância que o atual diretor corporativo e de relações internacionais da empresa caxiense Randon, Astor Milton Schmitt, resgata o nascimento da vocação que, anos mais tarde, o conduziria às portas da faculdade para graduar-se em Engenharia Mecânica e pavimentar uma trajetória que o situaria entre um dos mais destacados executivos corporativos do Estado e do país. “A mecânica estava no meu DNA desde cedo”, explica Schmitt, em entrevista concedida à revista Acontece em meio à abertura de uma picada em sua atribulada agenda, dividida entre os compromissos profissionais que o transformam em um cidadão do mundo em constante circulação por diversos países e as atividades decorrentes de sua candidatura à presidência da Federação da Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), cuja eleição acontece no mês de maio.
Astor Schmitt recebeu a reportagem no início da tarde de uma sexta-feira, 18 de fevereiro, um dia depois de celebrar com a esposa Júlia Dunia Tomé Schmitt uma data muito especial para o casal: seus 33 anos de matrimônio. Na noite anterior, ao chegar em casa após mais uma jornada de trabalho, revelou ter compartilhado com a esposa um jantar a dois temperado com champanhe e flores. O casamento foi celebrado em 17 de fevereiro de 1978, a partir do qual formou-se a família composta pelos filhos Fábio Tomé Schmitt, 30 anos, e Stefanie Tomé Schmitt, 28. A família é um dos pilares cruciais que sustentam e norteiam a biografia de Astor Schmitt desde a infância em Vila Tereza, localidade pertencente a Vera Cruz que, na época em que nasceu, ainda sustentava a condição de Segundo Distrito de Santa Cruz do Sul, da qual acabou se emancipando anos mais tarde.
Nascido em 3 de setembro de 1942, filho de João Carlos Schmitt e Florentina Rech Schmitt (a Dona Oli, que, aos 97 anos de idade, ainda reúne com frequência a família), Astor define a si mesmo como sendo fruto da conjunção de três elementos formadores: “sou um produto da colônia, do processo migratório de gente que se desloca em busca de uma vida melhor e do trabalho”, resume. O exemplo do trabalho Astor tem desde cedo no próprio ambiente em que foi criado, observando as lides dos pais primeiro na agricultura e depois mudando para outras atividades como a profissão de motorista adotada pelo pai e a atividade de costureira desenvolvida pela mãe. Ele e o irmão mais novo, Heitor (hoje empresário em São Borja), compartilhavam os ensinamentos que depreendiam de uma convivência familiar embasada em pilares como o valor da família, o valor da fé, o respeito às outras pessoas e a consciência de agir corretamente. “Tivemos um início de vida humilde porém calcado em uma sólida educação religiosa na igreja católica, que nos municiou com valores importantes”, revela Schmitt.
Próximo dos 70 anos de idade, Astor Schmitt não só parece desconhecer o significado da palavra “aposentadoria” como, em direção diametralmente oposta ao conceito de “parar para descansar”, orgulha-se da longevidade do casamento que mantém também com o trabalho, um matrimônio que celebrou bodas de ouro há três anos e segue avançando com prazo de validade indeterminado. “Tenho quase 53 anos de trabalho ininterrupto, uma vez que o primeiro emprego, lançado em minha primeira carteira de trabalho, data do ano de 1958”, revela. O documento é guardado com zelo pelo executivo, não só como relíquia pessoal como também uma maneira de brincar com os interlocutores, ao exibir a foto em que emerge sua figura aos 16 anos de idade, “muito bonito e com um bigodinho”, conforme faz questão de ressaltar.
Após os quatro anos de estudos primários, feitos na Escola Anchieta, em Vera Cruz, o menino Astor foi estudar no Liceu São Luiz, colégio marista situado em Santa Cruz do Sul, onde concluiu o então ensino ginasial, aos 15 anos de idade. Chegando em uma etapa de vida em que era preciso definir os rumos que iria seguir, e percebendo-se desprovido de vocação para trabalhar na agricultura e em atividades relacionadas à indústria do tabaco, que caracteriza a região em que nasceu, o jovem Astor decidiu fazer sua “primeira experiência em migração” e mudou-se para Porto Alegre, a fim de encontrar trabalho e dar sequência aos estudos. O primeiro emprego formal que obteve foi em um escritório de contabilidade chamado Aliança dos Varejistas. Também atuou como torneiro mecânico, formação que obteve fazendo curso técnico no Senai. Como os estudos estavam entre as prioridades, matriculou-se no Colégio Estadual Júlio de Castilhos, o tradicional “Julinho”, onde fez o curso científico (correspondente ao atual Ensino Médio), trabalhando de dia e estudando à noite.
Uma década após ter chegado em Porto Alegre, Astor Schmitt concluiu, em 1968, o curso de Engenharia Mecânica que fez pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). A formação estava em sintonia com o já citado DNA que o futuro diretor corporativo da Randon já detectava no sangue, não somente devido às brincadeiras de criança mas por também, desde muito cedo, demonstrar interesse pela mecânica de veículos diversos. “Aos 12 anos de idade eu já sabia dirigir os caminhões com os quais meu pai trabalhava e essa área me fascinava muito”, recorda. Antes de graduar-se, no entanto, o futuro começou a abrir-lhe as portas para Caxias do Sul a partir de 1965 quando, ainda estudante de Engenharia Mecânica, começou a procurar oportunidades de estágio. “Eu não conhecia Caxias do Sul, mas descobri que uma empresa chamada Carrocerias Nicola S.A. (o embrião da futura Marcopolo) estava abrindo vagas para estagiários. Candidatei-me e obtive a vaga, o que se transformou em uma produtiva e saudosa relação de trabalho com a empresa, que se estendeu até 1976”, explica.
O convite para ingressar nas fileiras da Randon S.A. Implementos partiu do próprio então presidente da empresa, Raul Randon, e Schmitt entrou para os quadros da nova empresa em 1976, onde criou raízes e atua até hoje. Além de ocupar o cargo de Diretor Corporativo e de Relações Internacionais da empresa, Schmitt desempenha as funções de vice-presidente do Conselho de Administração da Fras-Le S.A., empresa pertencente ao Grupo Randon; vice-presidente do Conselho de Administração do recém-criado Banco Randon e atual vice-presidente da Fiergs. Schmitt caracteriza essa sua trajetória como um acúmulo de experiências decorrentes do equilíbrio entre momentos de grandes alegrias e de grandes desafios a serem superados.
Tantas atividades, no entanto, não são suficientes para impedir que Astor Schmitt encontre tempo e disposição para se dedicar à família e também para cultivar algumas atividades pessoais que concorrem para manter aceso seu espírito e renovar constantemente as energias. Também no aspecto familiar Astor Schmitt considera-se uma pessoa plenamente realizada. “Com minha esposa Dúnia, construímos uma relação sólida, de profunda amizade e cumplicidade mútuas. Com os filhos, temos uma relação de muito amor e respeito, com todos seguindo seus rumos orientados por valores consistentes e compartilhados”, revela. A vida em família, também agregando sempre que possível a mãe (o pai já é falecido) e o irmão, é sempre uma prioridade na agenda de lazer determinada por Astor Schmitt. Apesar de conhecer grande parte do mundo em função da necessidade imposta pelos negócios, viajar a passeio com os familiares é um dos passatempos preferidos do executivo, do qual não abre mão. Fluente em seis línguas (português, inglês, alemão, italiano, espanhol e francês), comunicar-se em qualquer lugar do planeta não se configura em dificuldade para este verdadeiro cidadão do mundo. “Conhecer novas culturas e novos lugares é algo que me fascina, me areja, me agrega conhecimento e me faz desenvolver novas concepções”. Quando em terra pátria, aprecia o litoral brasileiro, em especial a praia da gaúcha Torres.
Quando com tempo livre em Caxias do Sul, sempre que possível, aprecia ir ao Estádio Francisco Stedile (o Estádio Centenário) assistir ao vivo às partidas do Caxias, seu time do coração, a ponto de ser um dos conselheiros do clube. “Não sou um bom exemplo de desportista, não sou fanático, mas exerço minha paixão pela S.E.R. Caxias, que é meu clube do coração, e apóio da melhor maneira possível”, afirma. Uma vez por ano, também não abre mão de dedicar-se durante quatro ou cinco dias para fazer “uma bela pescaria” no Pantanal mato-grossense, na Amazônia, no Alaska ou mesmo na zona de pesca argentina. “Já sou um veterano nisso”, confessa, evitando enumerar feitos nesse setor para que não pensem que conta “mentiras de pescador”, emenda, brincando.
Pouco afeito a assistir televisão (exceto noticiários e alguma programação esportiva específica), Schmitt aprecia mesmo é a leitura, apesar de não conseguir dedicar tanto tempo a ela quanto gostaria. Aprecia temas relacionados a cultura geral, história e economia, entre outros. Recentemente, concluiu a leitura da obra “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”, de Leonardo Narloch. Normalmente, lê muito em salas de espera de aeroportos, no avião, em quartos de hotel, na praia e em casa.
Uma figura histórica que admira é o papa João Paulo II, devido a características marcantes de seu perfil tanto enquanto personalidade pública quanto como ser humano, como sua liderança, seu carisma, sua coerência e sua capacidade de equilibrar um traço conservador com aspectos moderadores. Trazendo a reflexão para sua própria experiência pessoal, Astor Schmitt defende a premissa de que a pessoa que busca realização na vida profissional precisa seguir uma fórmula assim composta: primeiramente, é preciso conhecer aquilo que faz; depois, é preciso acreditar naquilo que faz; por fim, é preciso gostar daquilo que faz. “Quem conhece, acredita e gosta do que faz, colocando nisso o coração, já está rumando para o sucesso”, ensina Schmitt.
 

 

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