LADO B
Enviado em 07/04/2010
Cleodes Maria Piazza Júlio Ribeiro:
A Menina que Bordava Livros
Por Marcos Kirst
Apaixonada pela leitura desde criança, a professora e pesquisadora cujo nome se confunde com o resgate da cultura da imigração na região revela detalhes de sua trajetória na busca pela compreensão de quem somos
A busca incessante por compreender e desvendar os fatores histórico-culturais que moldam as nuances do mundo que a cerca é uma característica impregnada no perfil de Cleodes Maria Piazza desde a época em que era menina e ainda nem sonhava com o futuro casamento que lhe acrescentaria Júlio Ribeiro ao nome, pelo qual, assim completo, se tornaria uma das pesquisadoras mais renomadas já nascidas na Serra Gaúcha. As sete décadas de vida que a data de nascimento indica parecem não rimar com o vigor físico e intelectual que emana de sua aura de eterna investigadora intelectual e pesquisadora de campo.
Uma energia contagiante toma de assalto qualquer interlocutor que tem o privilégio de compartilhar com ela momentos de puro deleite decorrentes de um processo de busca científica pelos aspectos culturais, comportamentais e históricos que moldaram o ambiente da região colonizada pelos antepassados imigrantes, e é difícil e pesaroso ter de, por algum motivo, abandonar a interlocução. A força, a energia pulsante e criativa que moveram os primeiros colonizadores destas terras e seus sucessivos descendentes parecem renovar-se tanto no discurso quanto na prática diária e na forma de existir da professora e pesquisadora, que dedicou a vida e a carreira a registrar e compreender estes processos.
Nascida em Nova Milano, no interior de Farroupilha, em 4 de dezembro de 1939, Cleodes é a filha mais velha (entre cinco) do casal Aleixo Piazza e Cecília Fontana. Do pai, que era pedreiro (esteve envolvido na construção de obras importantes na região e em Caxias do Sul, como o prédio do Círculo operário, a Galeria JC e o Edifício Estrela), obteve, por meio do exemplo, a noção da necessidade de unir, na vida pessoal e profissional, os conceitos de ética e profissionalismo, que é um dos pilares de sustentação da cultura da região. “É o conceito do fazer bem feito, que se transformou em um valor regional. Isto é o que a cultura local exige de quem vem para cá, desde os tempos da imigração: o que se espera de quem se instala por essa região é que venha para trabalhar e ajudar a crescer, e não que venha com a intenção de se aproveitar do trabalho dos outros”, analisa a professora.
Cleodes narra sua própria biografia procurando compreender, a cada episódio, os fatores que motivaram e explicam seu próprio destino, deitando sempre o olhar pesquisador e científico sobre tudo o que envolve a construção do presente a partir da compreensão do passado. O fato de ter nascido em Nova Milano, por exemplo, concorreu para auxiliar a moldar em sua personalidade um espírito aberto a reconhecer e se interessar pelas diferenças, uma vez que aquela área, a partir da qual tem início a colonização da Serra, se transformou em uma região de fronteira cultural. “Meu pai era filho de imigrante, e todos tínhamos de ampliar nossas realidades a partir do convívio diário com as diferenças”, reflete Cleodes.
A intimidade com o processo de colonização italiana da Serra gaúcha está impregnada no sangue e na biografia familiar da Cleodes Piazza. “Eu sou fruto de um verdadeiro resumo étnico da colonização italiana na Serra. Dos meus quatro avós, três deles vieram diretamente da Itália e cada um dos quatro traz a cultura de uma das principais regiões de migrantes: um é vicentino, outro é vêneto, um é trentino o outro lombardo”, confessa. Além disso, ela nasceu na casa da avó, que a adquirira de uma das filhas de Tomazzo Radaelli, um dos três fundadores de Nova Milano juntamente com Luigi Sperafico e Stefano Crippa, que ali chegaram em 1875, na primeira leva de imigração.
A casa continua existindo fisicamente em Nova Milano, mas habita de forma ainda mais vívida as remotas lembranças de infância de Cleodes Piazza. “Como em todas as típicas residências de imigrantes italianos e descendentes, a casa possuía uma ampla sala na entrada, que era utilizada raramente pela família, apenas em ocasiões especiais. A minha história começa nessa sala que, em minhas lembranças de menina, era muito mais ampla do que realmente hoje me parece. Para mim, desde aquela época, ela era chamada por um nome mágico, que me transportava para outros mundos: era a Biblioteca. Foi ali que começou a minha paixão pelo estudo, pela pesquisa, pela leitura e pelos livros, que se transformaram – e são até hoje – em meu objeto de desejo”, recorda ela.
A biblioteca formou-se ali devido à ação de um tio seminarista que, quando voltava para casa, ia deixando ali em uma estante os livros de que não necessitava mais, e que iam despertando uma vocação para toda a vida na pequena Cleodes. Aos poucos, foi mergulhando na vida dos santos, na Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino e, principalmente, em uma edição portuguesa de um Dicionário Prático Ilustrado, que orientou definitivamente os rumos que sua vida tomaria. “Aquele dicionário foi uma verdadeira epifania para mim. Eu ficava maravilhada pesquisando os verbetes, as ilustrações, e a descoberta de que as palavras podiam ser explicadas por seus significados. Descobri o mundo das palavras ali, e aquilo definiu o rumo que minha vida tomaria”, revela.
Cleodes alfabetizou-se cedo, porém, precisava apelar para a criatividade a fim de conciliar o fascínio pela leitura com os afazeres domésticos nos quais auxiliava a sua mãe. “Minha mãe era filha de imigrantes, mas nasceu em Vacaria. Em casa, comíamos charque, para escândalo de nossos outros tios”, diverte-se ela, comprovando o fato de que o envolvimento com a diversidade cultural estava presente em sua vida desde as mais remotas lembranças. “Minha mãe me mandava bordar, mas o que eu queria mesmo fazer era ficar lendo. Eu escondia os livros no meio dos bordados e ia tentando intercalar as duas atividades quando ela não estava vigiando. Mas ela descobriu minha artimanha e começou a me impor metas diárias de bordado a serem cumpridas. Bom, isso me transformou em uma exímia bordadeira, pois eu me esforçava para bordar cada vez mais rápido e melhor para cumprir logo as metas e sobrar mais tempo para ler”, recorda.
Depois de concluídos os estudos relativos à quinta série em Farroupilha, rumou para o internato no Colégio São José, em Caxias do Sul. Aquele dia ela nunca esquece. “Fui trazida de trem de lá para cá, pelo meu pai, que vinha carregando a mala com as minhas coisas. Quando chegamos frente à porta do internato, ele colocou a mala no chão e, ao se despedir de mim, me disse: “Estuda, porque senão, o que te sobra é o cabo da enxada”, relembra. Como queria, com afinco, desde menina, ser professora, jamais deixou de estudar. Mais tarde, foi fazer o curso de Normalista em Bento Gonçalves e, concomitantemente aos estudos, passou a lecionar em uma escolinha em São Roque, para filhos de sargentos do Batalhão Ferroviário.
Nesta época, fica sabendo que, na Faculdade de Filosofia de Caxias do Sul, seria aberto o Curso de Línguas Neolatinas, que mais tarde viria a se transformar no Curso de Letras. Começa ali seu casamento com a vida acadêmica e com sua trajetória de professora e pesquisadora da Universidade de Caxias do Sul, caminhada que lhe traria a realização de sonhos profissionais e pessoais e o reconhecimento de sua dedicação e competência por parte não só das comunidades acadêmicas local, nacional e até internacional, como também da comunidade caxiense com a entrega do título de Cidadã Caxiense pela Câmara de Vereadores, em 1996. Seu amor e dedicação aos livros, inclusive, resultou no convite para ser a patrona da Feira do Livro de Caxias do Sul em 2005, o que também a deixou lisonjeada.
O ano de 1973, época em que Cleodes já integrava o quadro de professores da Universidade de Caxias do Sul, foi marcante na trajetória da professora, uma vez que é ali que surge a ação que resultará no embrião para o nascedouro do Projeto ECIRS, sigla pela qual é conhecido o projeto de estudo dos Elementos Culturais das Antigas Colônias Italianas na Região Nordeste do Rio Grande do Sul. Naquele ano, Cleodes já estava lecionando no curso de Letras da UCS quando chega a Caxias do Sul uma delegação de italianos vinda com a missão de auxiliar na organização das comemorações alusivas ao centenário da imigração italiana no Brasil, que ocorreriam dali a dois anos. Por saber falar bem o italiano, Cleodes foi designada para ciceronear pela cidade o adido cultural italiano que integrava a comitiva, o senhor Domenico Gardelli.
“Ele era um verdadeiro aristocrata, e ficou encantado com a manutenção dos traços culturais que afloravam em todos os cantos da região. Em dado momento, ele me perguntou o que nós, da universidade, estávamos fazendo para guardar aquela história, e percebi que ainda não estávamos fazendo nada”, revela Cleodes. Aquela pergunta em italiano (“Che cosa fare?”, ou seja, “o que estão fazendo?”) não parou de ecoar nos ouvidos da professora que, motivada, iniciou um trabalho de registro de depoimentos para investigar o papel da mulher na cultura da imigração italiana, com base no estudo dos afazeres femininos, juntamente com Júlio Ribeiro e Maria Elena Piazza.
Ao longo dos quatro anos de trabalho, o grupo foi sendo ampliado para dar conta da dimensão que o projeto começava a atingir. “Nenhum de nós ainda tinha noções de iniciação à pesquisa e, com as 12 pessoas que já éramos, estávamos aplicando na prática o conceito de grupo interdisciplinar muito antes de que se falasse nisso”, recorda a pesquisadora. Foi o embrião para o surgimento do ECIRS, que cresceu, se consolidou e hoje representa um dos mais importantes núcleos de pesquisa da UCS e de todo o Estado.
O casamento com o professor e funcionário público Rubem Júlio Ribeiro ocorreu no ano de 1967, representando, conforme ela mesma salienta, “o primeiro casamento interétnico de minha família, uma vez que ele é de origem luso-brasileira”. Rodrigo e Fabrício são os filhos advindos da relação. Aposentada oficialmente desde dezembro do ano passado, segue envolvida com novas linhas de pesquisa que resultarão em outras publicações resgatando processos culturais. A atual é a elaboração de um códex da cozinha da imigração, que a está envolvendo dia e noite no trabalho. “Somos o que comemos e comemos o que somos”, sentencia, como motivador de sua pesquisa. “O fato de ter me aposentado não significa que abdiquei de continuar a busca por entender quem somos e por que somos assim”, acrescenta.
