LADO B
Enviado em 02/08/2011
Dom Alessandro Ruffinoni:
Por Marcos Kirst
Um Imigrante Moderno que traz na
Bagagem a Fé e o Dom de Acolher
Em cima, embaixo, para qualquer direção que se lançasse o olhar, era a cor azul quem predominava na palheta da paisagem, composta exclusivamente por céu e mar, por onde o navio cargueiro saído do porto de Gênova ia riscando seu destino naquele longínquo ano de 1970, rumo às costas da América do Sul. Durante os 16 dias que durou a viagem até a primeira parada no porto brasileiro de Salvador, em novembro daquele ano, certamente não foram poucas as vezes em que o jovem padre italiano Alessandro Ruffinoni, entre suas reflexões silenciosas a bordo da nau, traçou paralelos com a aventura marítima vivenciada por patrícios seus quase um século antes, quando protagonizavam a saga da imigração italiana rumo à tão sonhada “Mérica”, onde recomeçariam suas vidas e acabariam fazendo parte de um capítulo importante da história de uma região serrana do sul do Brasil.
Em última análise, a sua própria viagem era uma consequência direta dos efeitos do processo de migração de italianos para diversas partes do mundo, movimento intensificado na última metade do século XIX, e que ainda provocava desdobramentos quase cem anos mais tarde. Na condição de padre scalabriniano, Ruffinoni integrava uma congregação religiosa criada justamente com o objetivo de oferecer acompanhamento religioso católico para as famílias de italianos que migravam para colonizar outras regiões do mundo. Aos 26 anos de idade, já consagrado padre, quando chegou sua vez de escolher um lugar do planeta onde ir desempenhar suas funções, Ruffinoni não teve dúvidas em optar pelo Brasil.
“Minha vinda para cá foi uma jogada da Providência, que traçou meu destino desde o início de minha vida religiosa”, recorda hoje o recém-empossado novo bispo diocesano de Caxias do Sul, Dom Alessandro Ruffinoni. Quando ainda era seminarista na Itália, o jovem religioso se encantava com as histórias narradas a respeito do Brasil, pelos padres scalabrinianos que temporariamente retornavam ao seminário, em férias. “Eu escutava tudo aquilo e simpatizei pelas histórias dos padres que atuavam no Brasil. Ficava impressionado com os relatos sobre as pequenas comunidades, onde as pessoas iam a cavalo até as capelas, coisas assim, e decidi que era para aquela região que eu desejava ir”, relembra o bispo.
Tomada a decisão, feito o pedido e tendo seu destino aceito pelos superiores, na data marcada para o início de sua viagem o jovem scalabriniano rumou até o norte da Itália, com destino ao porto de Gênova, a fim de embarcar em um navio que o levasse ao Brasil. A verba para a viagem, no entanto, era curta e a única opção que se encaixou nas possibilidades de Alessandro foi um navio cargueiro, ao lado de 24 marujos e apenas mais um passageiro. “Meu parceiro de viagem era um argentino que retornava à sua terra natal depois de passar uma temporada na Itália negociando a venda de cavalos de corrida”, recorda Dom Alessandro. A viagem foi tranquila, sem incidentes, e Alessandro aproveitou o tempo a bordo para estudar a língua portuguesa, que hoje, passadas quatro décadas, expressa com fluência, agregada a um leve sotaque que lhe revela a origem.
Alessandro Ruffinoni é natural de uma pequena comuna da província italiana de Bérgamo, na região da Lombardia, chamada Piazza Brembana, às margens do Rio Brembo. Nasceu em plena Segunda Guerra Mundial, no dia 26 de agosto de 1943, um mês após o ditador Benito Mussolini ser deposto e preso pelos próprios italianos, e duas semanas antes da rendição incondicional da Itália às forças aliadas. Seu pai, Giovanni Ruffinoni, era um típico trabalhador montanhês daquela região, que desempenhava atividades como extrair areia do rio e, especialmente, cortar lenha no mato para vender. “Cortar lenha e fazer carvão eram duas atividades tradicionais na família, naquela época”, revela Dom Alessandro. O casal Giovanni e Maria Arrigoni Ruffinoni teve cinco filhos, entre os quais Alessandro, o penúltimo. Desde muito cedo se imaginava dedicado à vida religiosa, pois, aos seis anos de idade, já auxiliava o padre local em suas atividades religiosas. “Fui coroinha, estudei em colégio de freiras até a quinta série e, aos 11 anos, ingressei no seminário”, explica. Nas horas de folga, gostava mesmo era de jogar futebol com os amigos, expressando, sem perceber, uma essência brasileira que parecia existir desde sempre impregnada em sua alma.
Os anos de formação religiosa em seminários com características missionárias levaram Alessandro a várias regiões da Itália, a começar por Bassano Del Grappa, na província de Vicenza, região do Vêneto, e depois para Rezzato, na província de Brescia, na Lombardia. Inicialmente integrado a um seminário de padres missionários, acabou fazendo estágio em um seminário scalabriniano, onde percebeu sua verdadeira vocação junto àquela congregação. A Ordem dos Scalabrinianos foi aprovada pelo papa Leão XIII em 1887, tendo sido criada pelo bispo italiano Dom João Batista Scalabrini, voltada a acompanhar e atender às demandas religiosas dos católicos italianos que migravam para outras partes do mundo. Também conhecidos como “carlistas”, os scalabrinianos (cujo nome oficial da Ordem é Congregação dos Missionários de São Carlos) têm como lema a passagem bíblica de Mateus 25,35, que diz “Eu era estrangeiro e vocês me acolheram”.
A capacidade de acolher estava diretamente ligada à felicidade de ser acolhido na trajetória de vida de Dom Alessandro. Tendo como destino final a capital argentina Buenos Aires, o navio cargueiro primeiramente aportou em três portos da costa brasileira, para descarregar mercadorias e carregar outras encomendas. Esse procedimento levava alguns dias, e Alessandro aproveitava esses períodos para desembarcar e começar a conhecer o solo brasileiro e a cultura local. Seu primeiro contato com a terra conhecida pelos primeiros imigrantes como “Mérica” foi em Salvador, na Bahia. Alguns dias depois, desembarcou no Rio de Janeiro pela primeira vez, onde ficou impressionado com o Corcovado e o Cristo Redentor, que foi visitar. “No Rio fiquei dois dias hospedado na casa de um italiano que veio me receber quando o cargueiro chegou no porto, pois ele era natural da mesma cidade que eu, e fez questão de me hospedar e mostrar a cidade”, conta Dom Alessandro. Por fim, desembarcou no porto de Santos, onde foi recebido por colegas religiosos da Congregação e levado à capital, São Paulo.
Da capital paulista, o padre Alessandro foi embarcado em um ônibus com destino à cidade de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. Dali, logo assumiu suas primeiras funções paroquiais no Brasil, na cidade de Casca, onde permaneceria por oito anos. Foi transferido para Guaporé, onde permaneceu por dois anos e então foi chamado a Porto Alegre, onde ficou por outros dois anos. No início da década de 80, retornou a Guaporé, onde permaneceu até o ano de 1988, quando aceitou a missão de dar sequência a seu trabalho religioso em terras paraguaias, onde permaneceria por 11 anos.
Dom Alessando foi designado ao Paraguai com a missão de abrir um seminário novo em Ciudad Del Este – quando chegou, ainda se chamava Ciudad Presidente Stroessner, em homenagem ao ditador que logo no ano seguinte seria deposto por um golpe de estado –, para trabalhar com os brasileiros que migravam para aquele país, de acordo com a vocação da ordem scalabriniana.
Em 1999, retorna para Porto Alegre, onde permanece até 2004. No ano seguinte, retorna ao Paraguai, dessa vez para a cidade de Assunção, onde trabalhou na Arquidiocese como coordenador da Pastoral dos Migrantes. Retorna ao Brasil no início do ano de 2006, quando é nomeado bispo auxiliar de Porto Alegre pelo papa Bento XVI. Em 10 de agosto de 2010, Dom Alessandro toma posse como bispo coadjutor da Diocese de Caxias do Sul, em solenidade na Catedral Diocesana. Em 6 de julho deste ano, 2011, o papa aceitou o pedido de renúncia de Dom Paulo Moretto, passando diretamente a sucessão a Dom Alessandro, que se tornou então o quarto bispo da Diocese de Caxias do Sul.
Envolvido desde o ano passado com o cotidiano e as demandas da diocese regional, o bispo Dom Alessandro Ruffinoni já transita com desenvoltura pelo Bispado e pelas dependências da Casa Paroquial e da Catedral Diocesana. Sintonizado com as ferramentas modernas de comunicação disponibilizadas pelos avanços da tecnologia, recebe a equipe da revista Acontece Sul com um sorriso, um cumprimento pela passagem do Dia do Amigo e depositando sobre a escrivaninha o netbook que carregava debaixo do braço e o telefone celular touch screen (de toque na tela), por meio do qual, aliás, recebe mensagem informando sobre a data alusiva à celebração da amizade. E não é para menos, afinal, Dom Alessandro está colocando em prática desde já os conhecimentos adquiridos após participar, em julho, do 1º Seminário de Comunicação para os Bispos do Brasil, realizado no Rio de Janeiro, cujo objetivo era discutir a maneira de a Igreja integrar em seu cotidiano ferramentas como internet, redes sociais, twitter, skype e outros recursos virtuais.
Frente à sua nova diocese, Dom Alessandro pretende pautar sua atuação focando três pontos principais. O primeiro deles refere-se aos cuidados com a juventude, levando-se em conta a época propicia para isso, uma vez que em agosto deste ano acontece o encontro do papa Bento XVI com a juventude em Madri, na Espanha. Mas a próxima jornada mundial com a juventude será em 2013, no Brasil, quando o país acolherá jovens católicos do mundo inteiro, contando com a presença do próprio papa. “Temos de estreitar as relações com a juventude, até para prepararmos bem o evento”, analisa Dom Alessandro. Outro ponto é a questão das vocações, que precisam ser estimuladas. “As paróquias estão crescendo cada vez mais, acompanhando o desenvolvimento da sociedade, e precisamos de mais jovens vocacionados para atendermos bem a essas demandas”, explica o bispo. O terceiro ponto é uma meta: realizar uma grande assembleia reunindo padres e leigos para refletir sobre a realidade diocesana atual e, a partir das conclusões, produzir um Regimento Diocesano, que estipule normas e procedimentos que orientem a atuação de todas as pessoas integradas à vida da diocese.
Em um plano mais prático, Dom Alessandro dá início à concretização de outros projetos, como uma necessária reforma na Casa Paroquial, cuja estrutura não recebe reformas há mais de meio século. Também tem planos de formar uma biblioteca diocesana, reunindo as obras importantes legadas por padres que se aposentam ou falecem, disponibilizando-as para a consulta de toda a comunidade. Por fim, tem como meta criar um museu diocesano, para reunir e preservar obras, objetos sacros, báculos episcopais, mitras, castiçais, hinários, quadros, condecorações, medalhas, placas, vestes e outros objetos que narrem a história da diocese caxiense.
Repleto de planos e de energia para o trabalho, vocacionado desde a juventude para interagir com uma comunidade cujas raízes remontem diretamente ao processo migratório italiano, Dom Alessandro começa com o pé direito sua relação com a diocese caxiense, que o acolhe e para a qual retribui com sua própria acolhida, na mais pura expressão da essência motivacional dos scalabrinianos. Um imigrante moderno que enriquece a Serra com seu talento e vocação, a exemplo de tantos outros que em séculos passados o precederam. Ele é estrangeiro, mas está acolhido.
