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LADO B

Enviado em 16/12/2010

Dom Paulo Moretto:

Um Apaixonado pelo Mistério da Alma Humana

Por Marcos Kirst

O Bispo Dom Paulo Moretto responde à pergunta sobre como é seu cotidiano - agora que está às vésperas de se aposentar após mais de 30 anos de bispado - puxando do bolso do paletó uma pequena agenda verde, na qual anota todos os compromissos da semana. Crismas, missas a serem celebradas, presença em reuniões com padres e membros da comunidade, inauguração de novas capelas, despachos sacerdotais, as diversas atividades vão surgindo ao virar das páginas, revelando uma rotina ainda agitada e pautada pelas demandas decorrentes de uma opção de vida que decidiu abraçar ainda na mais remota infância.
Dom Paulo afirma lembrar que sempre teve um traço profundamente religioso em seu próprio perfil, e ilustra o mistério do surgimento dessa característica invocando uma metáfora, quase uma parábola: “A gente nunca consegue saber exatamente onde e como nasce um rio. Vemos ali um banhado, aquela água parada e, de repente, quando nos damos por conta, ali está o rio. Foi mais ou menos semelhante a isso o surgimento de minha vocação: quando todos se deram por conta, inclusive eu, parecia que ela sempre tinha estado ali”, exemplifica. Apesar de ser o mais velho entre os oito filhos do casal Isidoro Domingos Moretto e Paulina Soldatelli Moretto, a vida religiosa de Dom Paulo não é fruto da tradição que caracterizava o destino das famílias numerosas do início do século passado, quando normalmente o primeiro filho era encaminhado ao seminário.
“Apesar de meus pais serem profundamente religiosos, jamais houve uma determinação deles para que eu seguisse esse caminho. Sempre houve muita liberdade para que os filhos decidissem seus próprios rumos, e eles respeitaram e apoiaram totalmente a minha decisão”, explica o bispo que, entre todos os irmãos, foi o único a optar pela carreira religiosa. O a­tual bispo Dom Paulo Moretto nasceu no dia 25 de maio de 1936, primogênito do casal Moretto, batizado como Nei Paulo Moretto.
Seu pendor precoce para a vida sacerdotal revelou-se tão cedo que surpreendeu a família e está registrado no livro escrito por sua mãe, que era professora, intitulado “Minhas Memórias”, lançado em 2003.

Nei Paulo nasceu em casa com a ajuda de uma parteira, na residência da família, situada à Rua Os 18 do Forte, 369, no bairro Nossa Senhora de Lourdes. Aos cinco anos de idade, chegou para a mãe e disse, conforme consta no livro: “Mãe, eu quero ser padre, mas não daqueles que o pai diz (os irmãos lassalistas); eu quero ser daqueles que batizam e rezam missas”. Com a anuência da mãe, foi comunicar ao pai a sua decisão e, recebendo também dele o sinal positivo, fez um pedido: “Então o senhor faça para mim a minha igrejinha”. Foi assim que o guarda-livros Isidoro Moretto mandou construir, no pátio da casa, uma pequena igrejinha de madeira, na qual o filho Nei Paulo brincava de rezar missa, fazer batizados, realizar procissões, dar sermões, organizar festinhas com os amigos, os vizinhos e, depois, com os irmãos.
Nei Paulo fez o curso primário no Grupo Escolar Emílio Méier e, aos 11 anos de idade, foi para o Seminário Nossa Senhora Aparecida, em Caxias do Sul. Aos 18 anos, ficou seis meses lecionando em um seminário em Petrópolis, no Rio de Janeiro, até abrirem as aulas no Pio Brasileiro, em Roma, para onde seguiu a fim de, posteriormente, cursar Filosofia e Teologia na Universidade Gregoriana. Nei Paulo ficou sete anos em Roma sem voltar para casa, até ordenar-se sacerdote em 2 de julho de 1961, aos 25 anos de idade. A mãe, dona Paulina, esteve presente à cerimônia de ordenação do filho, após uma longa viagem de navio que a levou até Roma.
A primeira atividade de Paulo Moretto agora como sacerdote foi na Paróquia Sagrada Família em Caxias do Sul, durante alguns meses, após retornar ao Brasil. Logo depois, iniciou seu ministério presbiterial como coadjutor na paróquia de São Francisco de Paula, em 1962. Foi assistente (1963) e reitor (1964-1965) do Seminário Nossa Senhora Aparecida em Caxias do Sul. No Seminário Maior de Viamão, atuou como professor de Filosofia e Teologia (1966-1972). Foi assistente dos seminaristas maiores das Dioceses de Caxias do Sul e de Frederico Westphalen (1967-1968), vice-reitor (1969) e reitor (1970-1972).
Dom Paulo Moretto foi sagrado como primeiro bispo da Diocese de Cruz Alta, tendo sido ordenado por Dom Umberto Mozzoni, em 28 de janeiro de 1973. Três anos depois, em 21 de janeiro de 1976, foi transferido para a Diocese de Caxias do Sul, tomando posse como bispo coadjutor com direito à sucessão em 19 de março de 1976. Quando o então bispo Dom Benedito Zorzi se aposentou, em 26 de maio de 1983 (um dia depois de Dom Paulo completar 47 anos), foi nomeado bispo titular. Nei Paulo cedia definitivamente lugar ao bispo Dom Paulo Moretto, que marcaria toda a comunidade regional com seu perfil acolhedor, simpático, positivo e profundamente ancorado na fé.
Mesmo em vias de se aposentar e preparando o terreno para passar a missão ao bispo coadjutor que o sucederá, Dom Paulo ainda irradia vigor, disposição e disponibilidade para receber a reportagem e falar um pouco sobre si e sobre os alicerces filosóficos em cima dos quais construiu sua história de vida. Em uma tarde de sexta-feira, recebeu fotógrafo e repórter em seu escritório no bispado em Caxias, municiado com anotações que fizera de antemão, a fim de não deixar de lado nenhum aspecto que considera relevante. A escrivaninha é cercada por prateleiras repletas de livros, sinalizando um dos maiores interesses de Dom Paulo, que o acompanha desde muito cedo: a leitura.
“Eu sempre gostei muito da leitura. Na verdade, acho que até lia demais. Quando eu era criança, os presentes que eu mais gostava de receber eram os livros. Entre as leituras que me marcaram naquela época estão ‘O Gato de Botas’, ‘A Gata Borralheira’, ‘Pinóquio’, ‘Aladim e a Lâmpada Maravilhosa’. Mesmo no seminário, ao invés de praticar esportes, eu gostava de ficar lendo embaixo das árvores”, recorda, deixando entrever uma ponta de arrependimento. “Eu deveria ter sabido equilibrar melhor as atividades da leitura e dos esportes, pois os esportes ajudam muito na socialização e integração das pessoas”, reflete o bispo.
A leitura, de qualquer forma, marcou a trajetória do religioso, que afirma que, por meio dela, especialmente a literatura de ficção, aprendeu mil vezes mais a respeito da alma humana do que por meio dos livros de psicologia. Nesse ponto da entrevista, Dom Paulo aponta para a estante e chama a atenção para uma coleção de livros com capa dura. “Li toda a obra de Dostoievski (1821-1881), um dos meus favoritos, ao lado de Graham Greene (1904-1991) e autores franceses em geral, especialmente Georges Bernanos (1888-1948)”, elenca.
Este último, inclusive, é apontado por Dom Paulo como “seu amigo”, uma vez que aprecia tanto suas obras que se imagina conversando com o autor. Tanto é assim que mandou ampliar uma foto do escritor, impressa em um de seus livros, enquadrou e pregou em uma das paredes do escritório. Entre as leituras das Sagradas Escrituras, Dom Paulo destaca os Salmos, os Evangelhos e as cartas paulinas como os livros da Bíblia que mais estima. Surpreendendo pelo ecletismo de suas leituras, Dom Paulo afirma também apreciar muito a obra  do psicólogo suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), especialmente por ajudá-lo a entender melhor as pessoas. “Cada ser humano é único, tem sua própria personalidade, e assim deve ser respeitado”, filosofa o bispo.
Dom Paulo ressalta que sempre guardou muito respeito e estima pelo mistério das almas humanas. “Por isso que sempre procurei valorizar mais a pessoa humana do que as instituições e as organizações”, analisa. Mesmo agora nesse processo de transição, em que se prepara para deixar o comando da diocese, sabe que continuará envolvido em atividades diversas, uma vez que acredita na tese de que “um padre bom nunca fica sobrando, e eu espero ter sido um padre bom”.
O que ele pede a Deus é que lhe conserve o amor pelas pessoas, o bom-senso e a inteligência, aspectos que considera fundamentais na vida humana. Nos dias que lhe estão por vir na condição de aposentado, Dom Paulo espera obter de Deus as forças e a inspiração necessárias para praticar melhor a gratuidade. Por “gratuidade” Dom Paulo entende a postura de não ser calculista, não esperar recompensa nem gratidão pelos atos feitos em benefício dos outros. “Espero que Jesus Cristo me ajude a não ser calculista. Há muito calculismo no mundo hoje”, analisa.
Aos 75 anos de idade, Dom Paulo afirma estar se preparando para vivenciar a experiência de chegar à velhice, termo que utiliza sem meias-palavras ou preconceito. “É uma nova etapa de vida, não se pode fugir dessa realidade. Cada etapa da vida humana possui suas próprias características, seus valores e suas limitações. Por isso, dei de presente a todos os padres da diocese um livro, sobre a sublime arte de envelhecer”, analisa o religioso. Provavelmente, terá mais tempo para a convivência com os irmãos e os vários sobrinhos que possui (cuja conta não lhe assoma rapidamente à memória), pelos quais é conhecido como o tio Paulo. “Um de meus sobrinhos, o Guilherme, diz que eu sou o melhor amigo dele, depois dos colegas da escola”, confessa.
Obedecendo a orientações médicas, o bispo reserva alguns períodos do dia para praticar caminhadas, que se alternam entre a área da Catedral diocesana, no centro de Caxias, e as calçadas da vizinhança, quando encontra fiéis e conversa com a comunidade.
Dom Paulo Moretto tem na ponta da língua a resposta para a questão a respeito de quais foram as maiores alegrias que ele vivenciou nessa trajetória toda dedicada à vida religiosa: “a alegria da oração e a alegria de conhecer Nosso Senhor Jesus Cristo e estar com ele”. Dom Paulo tem no termo “humanizar” um grande referencial para sua atuação e sua visão de mundo. “Sempre achei que o fundamental é lutar para tornar o ser humano mais humano, tornar o mundo mais humano, tornar a Igreja mais humana. Porque o ser humano foi feito por Deus, e é preciso humanizar a existência”.
Dom Paulo Moretto encerra a entrevista convidando o repórter a conhecer as dependências do bispado, nas quais reinam uma mobília e uma decoração modestas e aconchegantes, convidativas à introspecção. Na capelinha particular erigida em uma das peças, o bispo surpreende o repórter fazendo uma oração na qual agradece a Deus pela oportunidade de me conhecer e dar início a uma amizade que espera ser duradoura. Insiste em mostrar a horta, na qual transita com desenvoltura, indicando os nomes das hortaliças e das flores que coabi­tam em harmonia. É ali que revela que um de seus passatempos, durante alguns anos, era cozinhar uma massa e fazer molhos a carbonara, ao sugo, al pesto e outros molhos, colhendo temperos especiais na horta da diocese.
Despede-se presenteando o jornalista com cinco pêssegos recém colhidos, que faz questão de compartilhar. Se ainda havia dificuldades em compreender o significado do conceito gratuidade, foi só recordar a sensação de acolhimento vivenciada durante a entrevista para dirimir qualquer dúvida. O bispo Dom Paulo é um anfitrião de almas humanas. Viverá sua velhice com a mesma intensidade e comunhão com o divino com que viveu todos os 75 anos que o trouxeram até aqui.

 

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