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LADO B

Enviado em 16/03/2010

Gildo Flores: Uma Trajetória de Vida que Jamais Sai do Ar

Por Marcos Kirst

Carreira profissional e pessoal de ex-diretor da Rádio Caxias representa capítulo importante na história da radiodifusão do interior do Estado

Com todos os sentidos aguçados e a atenção concentrada, Gildo Flores faz mais uma checagem em todos os instrumentos de bordo enquanto o ruído das turbinas do possante jumbo 747 invade o ambiente. Confere atentamente mais uma vez o plano de voo e recebe sinal positivo de decolagem da torre de controle do Aeroporto Internacional do Galeão, do Rio de Janeiro. As mãos seguras e firmes começam a movimentar o manche instalado defronte à tela do computador de sua mesa de trabalho no escritório de sua residência no bairro Cinquentenário e, aos poucos, o avião virtual desprende-se suavemente do solo e começa a ganhar altura rumo a mais uma viagem aérea simulada no programa Flight Simulator (“Simulador de Voo”), o passatempo preferencial que preenche algumas de suas horas de lazer.
O ex-radialista e ex-ator de teatro Gildo Flores não sabe precisar quantas horas de voo já acumula na condição de piloto virtual, mas se a medida for a paixão que dedica ao hobby, é fácil atestar que já deve ter dado diversas voltas ao redor do planeta sem sair de casa. Alcançar longas distâncias e voar alto são, por sinal, características que definem a trajetória e a personalidade deste homem nascido em Passo Fundo há 78 anos e que agregou definitivamente seu nome à história do rádio no interior do Rio Grande do Sul durante muitas décadas no século XX. Hoje afastado das lides diárias da atividade jornalística, Gildo segue mantendo uma rotina diária metódica e atarefada típica de personalidades pró-ativas e realizadoras, que só encontram satisfação e sentido de existir quando envolvidas em atividades e projetos construtivos.
Os voos no simulador acontecem somente nos finais de semana, quando então se permite, em meio às nuvens do Oceano Atlântico virtual rumo a algum país distante, mergulhar nas reminiscências riquíssimas da vida singular que teve, impossível de ser resgatada em algumas páginas de revista. Um aperitivo, no entanto, pode ser oferecido, e é com esta intenção que Gildo Alves Flores resgata das estantes um precioso álbum de fotos no qual coleciona, organizadíssimo, registros de alguns dos momentos mais significativos de sua história.

Entre os três filhos do marceneiro Arlindo Flores e da costureira Petronilda Alves Flores, Gildo é o do meio, nascido em 13 de maio de 1931, em Passo Fundo. Do irmão mais velho, Abel Flores, ex-comandante da Varig hoje residindo em São Paulo, herdou a paixão pelo mundo da aeronáutica, que agora realiza por meio do software de computador. A irmã mais nova, Ana Maria Flores da Costa, é professora aposentada de Belas-Artes e mora em Porto Alegre. Da infância, recorda principalmente das brincadeiras de rua com os amigos da vizinhança, época em que as relações humanas se criavam e se solidificavam por meio da convivência ativa entre as famílias. “Nossa vizinhança era bem relacionada e criei amizades sólidas que perduraram a vida toda, como é o caso de João Carlos Rotta, meu amigo de infância que, depois, seguiu carreira militar e chegou a comandante do Terceiro Exército”, ressalta Flores.
Entre os anos de 1944 e 1945, em pleno vigor da Segunda Guerra Mundial que sacudia principalmente a Europa, Gildo tinha pouco mais de 10 anos e se divertia com os exercícios de blecaute aos quais a cidade era submetida regularmente. “Soava uma sirene e apagavam-se todas as luzes da cidade durante uma hora. Nós, crianças, adorávamos aquilo e fazíamos alta algazarra quando a luz voltava”, recorda. A influência do irmão mais velho foi determinante para o traçado de rumos cruciais na vida de Gildo, como o seu ingresso, aos 10 anos de idade, no escotismo. Foi um escoteiro atuante até os 16 anos e, desta experiência, levou para a vida toda hábitos salutares como a prática diária de exercícios e o conceito de realizar uma boa ação todo o dia.
Também foi o irmão quem abriu-lhe as portas para a carreira radiofônica, à qual acabou se dedicando com afinco e que moldou sua trajetória. “Meu irmão havia ingressado como operador na recém-fundada Rádio Passo Fundo e, logo depois, conseguiu um lugar para mim na empresa”, conta. A emissora foi fundada em 1946, integrando a rede das Emissoras Reunidas Rádio Cultura Ltda. E, no ano seguinte, Gildo, aos 16 anos de idade, já integrava a equipe, gerenciada por Maurício Sirotsky Sobrinho. Nos 18 anos em que permaneceu na emissora, Gildo atuou em praticamente todas as frentes: operador, locutor, discotecário, cobrador, redator, agenciador de publicidade e gerente. O cargo de gerente, por sinal, foi-lhe oferecido em 1955, aos 23 anos de idade. “Fiquei muito contente com a promoção. Eu era solteiro, bastante conhecido na cidade, e uma das primeiras coisas que fiz com o novo salário foi adquirir um garboso automóvel Ford inglês, cor bege-vinho, do qual me recordo até hoje”, afirma.
Paralelamente às suas funções no rádio, Gildo desempenhava também, desde a adolescência, a atividade de ator de teatro, tendo alcançado renome e fama na região na época. “Eu participava de um grupo de teatro amador e fiz muito sucesso interpretando o papel do Cego na peça ‘A Feia’, quanto tinha cerca de 18 anos de idade. Eu era um galã na região por causa do palco e devido às locuções no rádio. As meninas pediam fotos autografadas, por isso, tirávamos fotos bacanas, os cabelos com brilhantina, para distribuir”, revela.
Um episódio ocorrido com o ator Gildo Flores, durante a apresentação de uma peça na cidade vizinha de Carazinho, entrou para os anais da história do teatro passo-fundense, no início da década de 50. “Vinte minutos antes de começar a peça, houve um princípio de incêndio no prédio do teatro e eu corri para tentar salvar o equipamento de som. Como não conhecia o palco, acabei caindo em um alçapão que estava aberto e bati a cabeça. Fui levado ao hospital, onde me fizeram alguns pontos na cabeça. O fogo foi controlado e a peça foi encenada com o diretor desempenhando o meu papel, já que ele sabia todas as falas”. O episódio foi notícia na época nos jornais de Carazinho e Passo Fundo.
À medida em que as páginas do álbum de fotografia vão sendo viradas, as histórias vão saltando para fora e ganhando vida na voz e na lembrança do protagonista. Entre os anos de 1963 e 1964, ainda em Passo Fundo, decidiu abrir, paralelamente às suas funções na emissora, um estúdio particular de gravação de discos, a Gravadora Laçador. “Fazíamos as gravações dos artistas regionais e mandávamos os acetatos para São Paulo, na Gravadora Continental, que produzia os discos de 78 rotações”, explica Gildo, que traz no currículo o orgulho de ter percebido o talento latente existente em um jovem cantor e apresentador de programa gauchesco em Passo Fundo na época, Vitor Mateus Teixeira.
“Ele estava em início de carreira e apresentava um programa na Rádio Passo Fundo chamado ‘Entardecer no Rio Grande’. Como ele tinha intenções artísticas, resolvi financiar a gravação de um compacto dele com as canções ‘Xote Soledade’ em um lado e ‘Briga no Batizado’ no outro. Fizemos 300 cópias em 78 rotações e ele saía com uma pastinha com 10 discos para vender; mais tarde, retornava com ainda nove discos dentro da pasta. O início foi difícil, mas depois ele foi para Porto Alegre, estourou com sucesso como Teixeirinha e conseguimos vender todos os discos na Capital”, revela o radialista.
Aos 28 anos de idade, em 1959, ainda em Passo Fundo, Gildo Flores casou-se com Carmem Venhofen Flores, com quem teve o filho Carlos, nascido em 1962. Pouco tempo depois do nascimento do filho, Carmem adoeceu e faleceu devido a um câncer. “No mesmo período, vim para Caxias do Sul, assumir a gerência da Rádio Caxias, que também integrava a rede das Emissoras Reunidas, e Carlos ficou com os avós em Canoas”, recorda Gildo. A vinda para Caxias do Sul ocorreu no ano de 1965, na qual permaneceu por 23 anos, até 1988, quando a empresa foi adquirida pelo Grupo Triches. Por ocasião do encerramento de suas atividades em Caxias do Sul, o grupo Emissoras Reunidas publicou no jornal Pioneiro um agradecimento especial a Gildo Flores por sua competente atuação à frente da emissora durante mais de duas décadas, período no qual expandiu a área da planta transmissora da rádio, ampliou a potência de transmissão e inaugurou a sede própria da empresa.
Preocupado com a constante busca de aprimoramento, em 1971 Gildo Flores formou-se bacharel em Administração na primeira turma formada pela Universidade de Caxias do Sul (UCS). Radialista que era, foi escolhido, naturalmente, como orador da turma. No ano seguinte, casava-se com Teresa Barasuol Flores, com quem teve três filhos: Juliano (35 anos), Cristiane (32) e Viviane (29). Teresa hoje atua como docente da Faculdade de Enfermagem da UCS. A família é composta ainda pelos netos Rafael (7 anos) e Tomás (um ano), filhos de Juliano.
Depois de deixar a Rádio Caxias, em 1988 formou, com o filho Juliano, a firma Galf Representações de Emissoras, focada na intermediação da criação e veiculação de publicidade em emissoras de rádio de toda a região. “Atuamos forte durante mais de uma década até que, com o advento da internet, o representante passou a ser uma peça obsoleta no processo, e encerramos as atividades da empresa em 2004. Desde então, dedico-me à condição de ouvinte de rádios”, explica o empreendedor. Um ouvinte, naturalmente, como sempre sintonizado com a evolução tecnológica, pois escuta as emissoras e os programas de sua preferência sintonizando as rádios pelo computador, via internet.
Além dos vôos simulados no computador com seus jumbos ou monomotores (mais do que variar as rotas, Gildo também troca constantemente de tipo de aeronave para diversificar a aventura), o ex-radialista dedica várias horas do dia à leitura de jornais e de sites de notícias na internet, já que a busca constante pela informação é um hábito do qual jamais irá se dissociar. Caminhadas diárias (três quilômetros por dia), quando não chove, também integram sua rotina. A missa aos domingos é tão tradicional quanto os churrascos com a família reunida, quando as histórias voltam à tona e hipnotizam renovadamente as atenções dos familiares e amigos. Literalmente, Gildo Flores não sai do ar nunca.

 

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