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LADO B

Enviado em 16/03/2010

Irmão Bonifácio:

Por Marcos Kirst

Mesmo em meio à maior algazarra que tradicionalmente caracteriza qualquer horário de recreio em qualquer instituição de ensino do mundo ocidental, a serenidade, a paz de espírito e o sorriso parecem estar permanentemente passeando pelo rosto do Irmão Bonifácio, carinhosamente conhecido como “Boni” por todos os alunos, professores, diretores e funcionários que, nas últimas décadas, tiveram de alguma forma suas vidas vinculadas ao Colégio do Carmo em Caxias do Sul (hoje, Colégio La salle Carmo). É em meio à criançada, onde parece sentir-se à vontade e realizado, que ele aguarda a chegada da reportagem da revista Acontece, no meio de uma rara tarde de sol que se descortina em pleno chuvoso mês de setembro, para ciceronear o repórter até a biblioteca onde, certamente, o diálogo fluirá com mais facilidade.
A bengala em que se apóia para vencer os degraus do par de escadas que conduz ao ambiente por ele selecionado para conceder a entrevista é um apetrecho de uso efêmero agregado à sua figura, decorrente de uma queda sofrida semanas antes, quando visitava um seminário em Canoas, e não devido aos 90 anos de idade que contabiliza, uma vez que a saúde mental e física de que desfruta parece rimar com a vitalidade da gurizada no meio das quais ele há pouco se misturava. “Já estou melhorando”, explica, mostrando o braço que havia sido machucado na queda.
A jovialidade e a rapidez de raciocínio são duas características que se sobressaem em sua personalidade logo nas primeiras trocas de palavras. O Irmão Bonifácio nasceu em 14 de junho de 1919, no interior de Santo Cristo, próximo a Santa Rosa, na região Noroeste do Estado. O quarto mais velho entre dez irmãos, foi batizado como Olindo Muller, filho do casal de agricultores João e Maria Muller, cujos nomes pareciam profetizar a carreira religiosa à qual ele mais tarde se dedicaria. “Aqueles eram outros tempos, muito diferentes dos de hoje. Desde pequenos, os filhos ajudavam os pais no trabalho diário na lavoura. Nós íamos junto, cada um tinha a sua enxadinha e ajudávamos. Aquilo também era uma forma de educação na época, uma maneira de ensinar valores como responsabilidade e senso de dever”, recorda o religioso.
A educação formal, delineada fundamentalmente pelo ensino da escrita, da leitura e de algumas operações matemáticas, era ministrada por algum membro da comunidade que possuísse mais cultura, nas escolas comunitárias. “Eu fui alfabetizado em alemão, a única língua que eu sabia falar direito até ir para o seminário em Canoas, já jovem”, revela. A atração pelo mundo religioso manifestou-se bem cedo na alma do garoto Olindo. “Apesar da descendência alemã, fazíamos parte do ramo católico da família, e já aos oito anos de idade eu tinha a idéia de ser religioso, pois ficara muito impressionado e influenciado com a visita que um religioso lassalista fez à nossa região naquela época”, conta. “Aos domingos, se o dia estava bonito, a família toda se arrumava e íamos para a missa. A igreja ficava cerca de cinco quilômetros longe de nossa casa, e o próprio trajeto era, para nós, crianças, uma festa, pois parávamos a todo o instante para observar os animais que ainda existiam naquela região de terra nativa, como pacas, cutias, bugios, cobras, jaguatiricas e serelepes, uma espécie de esquilo. Íamos a pé ou montados em um jegue, que era a nossa motocicleta na época”, diverte-se.
Decidido a seguir a carreira religiosa, foi estudar no Seminário Lassalista em Canoas, onde, aos 16 anos de idade, fez os votos temporários (nove anos mais tarde, faria os votos perpétuos, no mesmo Seminário). No ano de 1940, é designado para dar aulas na escola primária do Colégio do Carmo, em Caxias do Sul, dando início a uma relação com a cidade e com o educandário que perduraria até os dias de hoje, entre idas e vindas. Porto Alegre, Canoas, São Carlos (no interior de São Paulo) e Volta Redonda foram algumas das localidades para as quais destinou, ao longo de sua extensa carreira de religioso e educador, todo o talento que sempre teve para desempenhar um papel importante e marcante na formação de jovens, com o passar das décadas.
Entre outras matérias, ensinou língua portuguesa, latim, leitura, história, geografia, aritmética, literatura, grego e, acima de tudo, cidadania. “Sempre me preocupei em ajudar as crianças a desenvolverem um caráter firme”, explica o educador, ilustrando sua filosofia de vida com a passagem bíblica existente no evangelho de Mateus, capítulo 5, versículo 37: “Que o teu “sim” seja “sim”, e o teu “não”, “não”. “Se fosse sempre assim no mundo, não teríamos os problemas políticos que estamos vendo por aí hoje, pois o que passa disso, é falsidade”, argumenta.
 

Embasado na sabedoria adquirida após décadas de esforços empreendidos em favor da educação, Irmão Bonifácio vê com preocupação alguns fenômenos que ocorrem nos dias de hoje na esfera do ensino. “Hoje em dia, o processo educacional está mais preocupado em repassar conteúdos, deixando de lado a formação do caráter das crianças. A família precisa assumir um papel mais ativo no processo educativo global de seus filhos, e a pessoa precisa perceber que é ela mesma quem se educa, a partir das orientações e dos instrumentos que recebe da escola e da família”, sintetiza. Uma de suas paixões ainda é o escotismo, tendo sido ele, inclusive, o fundador do primeiro grupo de Bandeirantes em Caxias do Sul, surgido em 1980.
Apaixonado por aquilo que faz, revela que, se dependesse dele, continuaria em sala de aula, ensinando, mesmo aos 90 anos de idade. “Mas deixa os outros trabalharem um pouco também”, sentencia, bem-humorado. Ter participado de forma ativa da educação de várias gerações de caxienses é motivo de justa satisfação por parte do religioso: “ainda há pouco, uma criança me falou lá no pátio, muito espantada, que o pai dela dissera que até o avô dela havia sido meu aluno”. Atualmente, Irmão Bonifácio desempenha funções mais leves junto ao cotidiano do educandário, atuando “como uma espécie de Relações Públicas interno”, sendo uma presença constante e de referência em meio aos alunos.
O dia do Irmão Bonifácio começa cedo, muito cedo mesmo, às 4h45, quando se levanta e se prepara para a oração comunitária, que ocorre às 6h. Até lá, dedica-se a ler as notícias que lhe chamam a atenção em jornais como o Correio do Povo, Zero Hora e Pioneiro, além de publicações religiosas. “Passo os olhos pelos títulos das matérias e me detenho naquilo que me chama a atenção”, revela, acrescentando que “acompanha de perto a política”. Depois do café matinal, que é servido às 6h45, começa a se dedicar às atividades relacionadas ao cotidiano da escola. As leituras continuam a fazer parte de seu hábitos diários, especialmente a de revistas como Veja, Istoé e Superinteressante. Rui Barbosa, Euclides da Cunha, Machado de Assis, Castro Alves e Visconde de Taunay figuram entre os autores que ficaram para sempre em suas memórias.
Depois do jantar, ao qual se dedica por volta de 18h30, assiste aos telejornais (“especialmente o da tevê Bandeirantes”) e à programação da Rede Vida e, normalmente, por volta de 20h30 já está na cama. Satisfeito com a vida plena que contabiliza ter levado, dita para o repórter a frase que gostaria de ver impressa na revista: “a minha vida foi longa e feliz; não me arrependo do bem que fiz”. Só sente mesmo saudades é de jogar futebol, passatempo que cultivou até por volta dos 50 anos de idade, quando teve de parar devido aos ossos, que estavam fracos. A saúde, porém, continua de ferro: “talvez o segredo para eu estar ainda tão bem resida no fato de eu já ter passado tantas horas em hospitais na vida, e tenha sido bem cuidado; já passei por 22 internações e quatro cirurgias”, contabiliza.
A julgar pela vitalidade que transpira por toda sua pele, o Irmão “Boni” ainda tem uma longa carreira pela frente junto às crianças no pátio interno do Colégio do Carmo em Caxias, fazendo jus a uma de suas máximas: “o importante é aproveitar os últimos anos de vida para semear a boa semente e os tesouros adquiridos em anos anteriores”.
 

 

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