LADO B
Enviado em 15/03/2010
Izidoro Zorzi: Um Leonino na Reitoria
Por Marcos Kirst
Reitor da Universidade de Caxias do Sul recorda os duros e bons
tempos de infância na colônia e os anos de formação que o conduziram
a uma biografia vencedora dedicada ao estudo e ao ensino na região
Equilibrando formalidade com afabilidade, atenciosidade com objetividade, o reitor da Universidade de Caxias do Sul, Isidoro Zorzi, encontra tempo na agenda para dedicar uma hora em um dia de semana para atender à reportagem da revista Acontece. Representante típico do signo de leão, deixa transparecer, ao longo da conversa, ser detentor das características básicas que regem seu signo: nobreza de atitudes, clareza, firmeza, vitalidade, autoconfiança, honestidade. Nascido na colônia serrana em 16 de agosto de 1942, hoje, aos 67 anos de idade e dirigindo uma das mais representativas instituições de ensino superior particulares do país, Zorzi não se dissocia das origens humildes e trabalhosas que moldaram sua trajetória de vida.
Ele é o mais velho dos 14 filhos que tiveram o casal de colonos Jozé Zorzi (falecido em 1982 aos 62 anos de idade) e Anna Simionato Zorzi, hoje com 87 anos e ainda residindo nas terras da família na localidade de Travessão Paredes, interior de Nova Pádua, região que se desmembrou do município de Flores da Cunha. Os pais eram devotos de Santo Isidoro, que nomeava a capela da localidade e em cuja homenagem batizaram o primogênito. Os primeiros anos de vida em meio às lides tradicionais da colônia permanecem frescos na memória do reitor, que recorda com nostalgia a infância em meio aos numerosos irmãos. “Dava para formar um time completo de futebol e ainda sobrava gente para o banco”, brinca, ressaltando que, entre os 14, havia equilíbrio absoluto entre o número de meninos e meninas.
“Naquela época, assim que a criança começava a caminhar sozinha, logo assumia sua parcela de responsabilidades no trabalho junto com os pais. Começava-se com as atividades mais leves, como carregar cestos e ajudar nos parreirais, e depois, mais crescidinhos, já manuseávamos enxadas e foices”, recorda Zorzi. Não havia muito tempo para brincadeiras naquela época, mas mesmo assim ele guarda lembranças positivas do cotidiano em família. “Criávamos animais e cuidávamos das plantações para subsistência. Tirávamos da terra quase tudo do que precisávamos para nossa manutenção. Inclusive minha avó paterna sabia fiar e tecer o linho, com o qual produzia lençóis, toalhas e até as camisas que vestíamos para trabalhar na roça”, lembra.
As idas até a cidade para adquirir produtos impossíveis de obter em casa eram raras. “Íamos até lá para comprar artigos como café, sal, ferramentas. De resto, produzíamos tudo, até mesmo açúcar mascavo. Nosso maior sustento vinha do excedente da produção, especialmente dos parreirais, de onde comercializávamos uva in natura e vinho”, explica. Isidoro Zorzi recorda que a família precisava de exatos oito sacos de trigo para passar o ano produzindo pão e massa para o consumo próprio. O restante era comercializado. “Do milho, tirávamos o necessário para fazer farinha que garantisse a polenta e a ração para os animais e o resto vendíamos”, emenda.
A semana de trabalho estendia-se até o sábado e o domingo era reservado para o comparecimento em família à missa pela manhã e, à tarde, permanecia-se na capela, participando de atividades com toda a comunidade. “As crianças iam à catequese. Os homens se reuniam para jogar baralho ou bocha e as mulheres para colocar as fofocas em dia. Era nesses raros momentos que nós, crianças, brincávamos um pouco, jogando bola, andando de carrinhos feitos de madeira e outras brincadeiras que desapareceram com o tempo”, recorda.
Os estudos tiveram início aos sete anos de idade, em uma escola rural construída pelos próprios moradores próximo à capela. A prefeitura cedia o professor, que administrava a chamada “classe unidocente”, reunindo na mesma sala alunos de diferentes idades, cursando séries diversas. “Aprendi bastante desde o início, especialmente porque o professor morava na nossa casa. Não tinha como eu não fazer os temas”, brinca Zorzi. Permaneceu em Travessão Paredes até os 11 anos de idade, até concluir os estudos do quinto livro (o equivalente hoje à quinta série do ensino fundamental) e, no ano seguinte, começou a desgarrar da terra natal, matriculando-se no Seminário Nossa Senhora Aparecida, em Caxias do Sul, para a Admissão. “Nessa época, só voltava para casa para rever a família nas férias de final de ano”, comenta. A partir daí, o roteiro de vida do jovem Isidoro Zorzi dá a guinada definitiva rumo ao caminho do estudo e do ensino, que o levará ao cargo de reitor da Universidade de Caxias do Sul em 2006.
Os estudos relativos ao Ginásio e ao Científico foram todos realizados em Caxias do Sul, de onde só saiu aos 19 anos de idade, em 1961, para cursar Filosofia no Seminário do município gaúcho de Viamão. No ano de 1963, mudou-se para Pelotas, a fim de lá concluir o Bacharelado e a Licenciatura em Filosofia, o que ocorreu dois anos mais tarde. Preocupado com as questões sociais e com as injustiças geradas pelas falhas do sistema político e econômico, logo Zorzi identificou-se com a militância política junto à Juventude Universitária Católica (entidade conhecida pela sigla JUC), onde conheceu e se apaixonou por aquela que viria a ser sua esposa, Neuza Maria Coelho.
“Em 1964 sobreveio no Brasil o golpe militar e começou a repressão e perseguição política. Como eu integrara a JUC, fiquei marcado e comecei a sofrer perseguição. Na época, eu lecionava em vários colégios e, devido à pressão feita pelo regime, as portas começaram a se fechar, os contratos foram sendo cancelados. Fui perseguido e sofri inquéritos policial-militares promovidos pela repressão, pois nos tachavam de subversivos”, recorda Zorzi. Foi esse o contexto que fez com que Zorzi aceitasse, em 1967, o convite feito para vir a Caxias do Sul lecionar a cadeira de “Doutrina Social da Igreja”, no curso de Filosofia da UCS. “O titular da cadeira era o padre Sérgio Leonardelli, que fora convidado pelo reitor Virvi Ramos a assumir o cargo de vice-reitor. Logo, também estava ministrando a cadeira de Lógica.
A partir daí, a formação pessoal passou a ser desenvolvida ao mesmo passo em que o educador ia pavimentando sua trajetória de ensino em sala de aula. No transcurso do ano de 1968, Zorzi cursou uma especialização em Antropologia e Arqueologia em São Leopoldo, especializando-se em Antropologia Cultural. “Era uma época bem puxada. Além das atividades semanais, pegava a estrada todo o final de semana para comparecer ao curso em São Leopoldo”, recorda o reitor. No ano seguinte, seguiu se especializando, desta vez na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre, no curso de Metodologia da Pesquisa. Entre os anos de 1977 e 1978, cursou todas as cadeiras do mestrado em Sociologia e Ciências Políticas, também na UFRGS, mas não apresentou a dissertação e acabou ficando sem o título de mestre.
Nas décadas de 70 e 80, Zorzi conciliou suas atividades universitárias com desafios que aceitou junto a cargos públicos municipais. Em 1973, durante o mandato do prefeito Mário Ramos, Zorzi foi convidado para colaborar com as atividades da Secretaria Municipal de Habitação e Ação Social. Entre os anos de 1983 e 1989, assumiu a titularidade da pasta. Ainda em meados da década de 70, aceitou o cargo de Chefe de Departamento do Curso de Filosofia, Psicologia e Sociologia da UCS. Entre 1978 até 1984, foi coordenador do Curso de Serviço Social e assessor da Pró-Reitoria de Planejamento de 1992 a 2006, quando então assumiu o cargo de reitor da instituição para o mandato 2006-2010.
Obviamente que em meio a tantos compromissos, houve sempre tempo para dedicar-se à vida pessoal. O casamento com a assistente social Neuza, pelotense de nascimento, aconteceu em 10 de janeiro de 1968, no exato dia do aniversário dela. Da união nasceram duas filhas: Neisi, em 1969, e Rebeca, em 1975. O papel de avô começou a ser desempenhado há 18 anos com o nascimento da primeira neta, Mariana, e prosseguiu com a chegada, dois anos depois, de Vinícius, ambos filhos de Neisi.
Os compromissos relativos ao cargo de reitor da Universidade de Caxias do Sul praticamente loteiam toda a sua agenda de atividades durante a semana. Costuma dormir pouco, estando em pé já antes das sete horas da manhã, quando normalmente vai se deitar à uma da madrugada. Após o café, já está em seu gabinete despachando, na UCS, às 8h. Quando não está envolvido em compromissos relativos à instituição, janta em casa com a esposa. Gosta de acompanhar os noticiários pela televisão e, para relaxar, sintoniza nos canais de áudio da tevê por assinatura, especialmente naqueles destinados à musica clássica, uma de suas paixões.
Beethoven e Tchaikovsky figuram entre seus compositores clássicos preferidos. Tanto é que, quando assumiu a reitoria, em 2006, lançou um desafio à Orquestra Sinfônica da UCS: gostaria de vê-la conseguir executar, até o final de seu mandato, em 2010, a peça 1812, de Tchaikovsky. “Eles conseguiram dentro do prazo, e apresentaram a peça em dezembro do ano passado no Parque dos Macaquinhos. Mas lancei para eles um novo desafio: executar a 9ª Sinfonia de Beethoven”, revela o reitor.
Quando encontra tempo, coloca em dia as leituras de livros, especialmente os que abordam temas como Ciências Políticas, Sociologia e Filosofia. Domenico de Masi, Alain Turaine e Norberto Bobbio figuram entre seus autores mais visitados ultimamente. Para manter-se informado sobre as questões da cidade e da região, acompanha as notícias dos jornais editados em Caxias do Sul e, aos finais de semana, dedica um tempo à leitura da Folha de São Paulo, especialmente as matérias e cadernos sobre cultura.
Em casa, onde vive com a esposa, a rotina do cotidiano é quebrada pela presença de nada menos do que sete animais de estimação, três gatos e quatro cachorros. Atento à vida animal que coabita seu lar, Zorzi sabe os nomes, as raças e as idades de todos, bem como a maneira como cada um foi chegando. “Os cachorros são a Leleca, a Popi, o Dino e o Snoopy. Quanto aos gatos, o macho é o Tuco. As duas gatinhas não têm nome”, afirma, convicto.
Mas a relação do reitor da UCS com o reino animal vai além do convívio com os gatos e cães domésticos que abriga em casa. Desde o longínquo ano de 1968, ele se dedica ao hobby da apicultura, cujas colmeias administra nas terras da família que ainda são mantidas no interior de Nova Pádua, junto ao lugar onde ainda reside sua mãe. “Já cheguei a ter lá cerca de 50 caixas de abelhas. Hoje tenho sete colméias que, em anos bons, chegam a produzir até cem quilos de mel. Mas o inverno rigoroso do ano passado e as chuvas intensas do início deste ano prejudicaram o desempenho das abelhas, e não tiramos mais do que cerca de 40 quilos”, explica. Colecionador de ferroadas no passado, hoje não pode mais correr o risco de ser picado devido às reações alérgicas, e realiza os procedimentos junto às colméias devidamente paramentado com todas as roupas especiais de proteção. Afinal, o leonino reitor ainda tem muitos leões a matar por dia à frente de seus constantes desafios.
