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LADO B

Enviado em 06/12/2011

Lisana Bertussi:

Paixão pelas Letras Pauta Trajetória de Ex-princesa

Por Marcos Kirst

Lisana Bertussi
Lisana Bertussi

Professora, pesquisadora e escritora revela detalhes do caminho pessoal que a levou da corte da Festa da Uva ao reconhecimento na academia

Um oásis de área verde, sossego e cultura em meio à correria urbana que assola o cotidiano de Caxias do Sul nos dias de hoje. Assim pode ser definida a residência da professora e escritora Lisana Bertussi, situada na Colônia Nossa Senhora da Saúde, logo no início da Linha 30, distante cerca de um quilômetro dos pavilhões da Festa da Uva no sentido de quem segue, via uma bucólica estrada vicinal, rumo ao distrito florense de Otávio Rocha. É ali que ela e o marido, o arquiteto Paulo Bertussi, convivem há 34 anos com pássaros, mata nativa, silêncios silvestres e uma aconchegante casa arquitetada para abrigar as necessidades de um casal que respira arte e cultura tanto na vida profissional quanto nos interesses pessoais.
“Chegamos aqui em 1977, em uma época em que essa região ainda não dispunha de serviços básicos como luz elétrica e acesso asfaltado”, recorda Lisana, recebendo a equipe da revista Acontece em uma agradável tarde de sexta-feira. Na ampla, arejada e iluminada sala, a anfitriã serve um café preparado especialmente para a ocasião e coloca a tocar no aparelho de som o primeiro de muitos discos de seus compositores preferidos (jazz, blues, tangos) que construirão a trilha de fundo da conversa. “A música sempre fez parte da minha vida. Eu nasci e vivi boa parte de minha infância na casa de meus avós, que ficava na esquina entre as ruas Alfredo Chaves e Pinheiro Machado, onde nos últimos tempos funcionou, durante alguns anos, uma escola de música, o que parece ter sido a vocação daquele ambiente”, explica Lisana. “Moramos um tempo ali e, quando eu tinha dois anos de idade, nos mudamos para uma casa de madeira, de fundos, na Rua 20 de Setembro”, recorda.
Lisana é a mais velha entre os cinco filhos (quatro moças e um rapaz) do casal Décio Evaldo Schumacher e Ady Rossarolla Schumacher, nascida em 14 de setembro de 1950. O pai trabalhava na antiga Confecções Sul-Brasileiras, empresa da qual seu avô foi fundador e gerente, e Lisana passou a infância vendo o pai produzir palas e capas para os gaúchos usarem a cavalo em dias de chuva. “Eu fui uma menina Sacre-Coeur, de solidéu na cabeça e com uma filosofia de que na vida a gente tinha de ser igual à personagem Chiquitinha, ou seja, bem certinha e conservadora, diferente da Pancrácia, que era a personagem aprontona”, explica Lisana, fazendo referência à formação que teve no Colégio Sagrado Coração de Jesus, em que estudou. “Eu tinha espírito de liderança desde pequena, e sempre ganhava a medalha de melhor aluna do colégio; vivia cheia de medalhas”, recorda.
Mas uma revolução nos caminhos internos de visão de mundo acabou tendo lugar na vida de Lisana, quando ela decidiu fazer dois cursos de segundo grau (o correspondente ao ensino médio da época). Até os 18 anos de idade, fez a Escola Normal no Sagrado Coração de Jesus e, logo depois, cursou o Científico no Colégio Cristóvão de Mendoza. “Aquilo revolucionou minha vida, pois ali meus colegas eram em sua maioria ateus e meus conceitos de vida foram mudando com a participação nas discussões filosóficas e políticas que aquele ambiente proporcionava, surgindo o embrião de meu espírito crítico”, analisa. “Mesmo assim, fui candidata a rainha da Festa da Uva”, brinca Lisana, que não sagrou-se rainha, mas integrou o quarteto de princesas na 11ª edição da Festa, realizada no início de 1969.
O convite para participar do evento partiu da diretoria do Clube Juvenil, do qual Lisana e seus familiares eram associados. O presidente da Festa era Lívio Gazola e Elizabeth Menetrier conquistou o título de rainha. Lisana (na época ainda com o sobrenome de nascimento, Schumacher) foi eleita princesa juntamente com Elizabete Corsetti, Ana Cristina Rodrigues e Jocelia Pizzamiglio. Integrando a comitiva oficial da Festa, Lisana, então com 18 anos de idade, teve a oportunidade de viajar para várias partes do país (como Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Salvador) e para o exterior, como Argentina e Uruguai, divulgando o evento.
Além de proporcionar uma experiência única e de ampliar os horizontes da jovem princesa, a Festa da Uva serviu também como pano de fundo para aproximar Lisana de um jovem arquiteto recém-formado que andava fazendo sucesso entre as moças da cidade, e que viria a se tornar seu marido poucos anos mais tarde. “Foi ainda em 1968, quando eu era candidata a rainha da Festa, que eu conheci o Paulo Bertussi, durante a realização da Feira da Ternura, um dos vários eventos beneficentes promovidos para divulgar a Festa”, recorda Lisana. “Naquele evento, as candidatas a rainha da Festa da Uva também desfilavam e, depois do desfile, estávamos nós todas atrás do palco, em uma sala, quando o Paulo apareceu ali e disse para a Betti Corsetti: ‘Que lindo esse teu vestido branco’. E eu, muito rápida, cheguei perto dele e disse: ‘E do meu, tu não achas nada?’ Acho que ganhei ele ali”, revela Lisana, divertindo-se. Daquela primeira frase espirituosa na Feira da Ternura até o casamento não demorou muito, e Paulo e Lisana realizaram a cerimônia em 10 de julho de 1970, na casa da mãe de Lisana. “Éramos contestadores na época, quebrávamos paradigmas sociais e conseguimos fazer com que um padre mais à esquerda concordasse em nos casar em casa, e não na igreja”, recorda Lisana.
Na mesma época, decidiu ingressar no Curso de Letras na Universidade de Caxias do Sul, decisão que a faria seguir a carreira de professora, pesquisadora e escritora hoje com vasto currículo. A decisão de seguir o caminho das letras remonta a uma experiência marcante que Lisana vivenciou ainda na infância, quando as freiras do colégio em que ela estudava chamaram sua mãe à escola, para conversar. “Elas estavam preocupadas comigo, porque, na visão delas, eu não tinha imaginação. Isso se deu porque convidaram alguém para ir à escola proferir uma palestra sobre o Dia do Índio e depois nos pediram para fazermos uma redação a respeito daquele fato. Eu, muito objetiva, apenas relatei telegraficamente que no dia tal havia estado na escola tal pessoa, falando sobre o Dia do Índio e ponto. Não coloquei sabor nem tempero na narrativa, o que preocupou as professoras”, relembra Lisana.
A partir daquilo, dona Ady, que era uma grande leitora (“ela nos dava para ler a coleção Tesouro da Juventude”, recorda Lisana), preocupou-se com a filha e decidiu criar um método para ajudar a despertar nela a imaginação e a criatividade. “A mãe pegava uma maçã, colocava num prato, me mostrava e pedia para eu falar tudo o que me viesse à cabeça sobre aquela fruta. Ela me fazia ir além daquilo que eu enxergava de concreto na minha frente, me induzindo a pensar nas famílias de agricultores que plantaram as macieiras, em quem as colheu, na necessidade de sobrevivência de quem vendia as maçãs e assim por diante. Aquilo definitivamente despertou a minha imaginação e foi ali que eu comecei a gostar cada vez mais de ler e escrever, e foi fundamental para a decisão que eu tomaria mais tarde, em termos de carreira a seguir”, explica a professora.

 

Em 1975, Lisana formava-se em Letras, confirmando o acerto da escolha e guardando na memória as aulas que teve com seu mestre literário, o professor e escritor José Clemente Pozenato, a quem rende homenagem. Em seguida, fez mestrado na PUC, encerrado em 1978, com a tese “A Cidade e o Campo nas Novelas de Reynaldo Moura”. Pouco antes de concluir o mestrado, já estava ministrando aulas no curso de Letras da UCS, em disciplinas como Língua Portuguesa e Literatura. Em 2 de janeiro de 1979, nascia Tobias Bertussi, o único filho do casal.
Antes disso, no entanto, Lisana já havia palmilhado seus primeiros passos na condição de professora quando, aos 19 anos de idade, foi convidada para dar aulas de Matemática na Escola Técnica de Comércio do Colégio do Carmo. Para isso, no entanto, foi preciso obter uma permissão especial do Vaticano, em Roma, pois Lisana entrou para a história da instituição como a primeira mulher a ministrar aulas no Carmo, que na época era uma escola só para meninos. O doutorado, também feito na PUC em Porto Alegre, foi concluído em 1991. Interessada na cultura gauchesca, Lisana começa a publicar livros que resgatam variados aspectos ligados ao tema, também trabalhados em suas teses e dissertações de pós-graduações, e que vão consolidar suas linhas de produção intelectual também em sala de aula. Em 1985, saía, pela Editora Tchê, seu primeiro livro: “De Simões Lopes Neto aos Poe­tas da Califórnia”, fazendo um resgate de expressões do cancioneiro popular gauchesco.
No ano de 1995, em parceria com o marido, Paulo Bertussi, Lisana publica uma compilação de “causos” gauchescos intitulada “Causos do Boi Voador”, pela Editora da UCS, com ilustrações do cartunista gaúcho Santiago. O livro faz tanto sucesso que ganha reedições nos anos de 1998 e 2010. Os “causos” foram sendo transcritos e compilados a partir de relatos orais que se mantêm vivos nas regiões ligadas à cultura gaúcha no interior do Rio Grande do Sul, e o “boi voador” do título faz alusão à “Fazenda do Boi Voador” que o casal possui em Criúva. Em 1997, publicava seu terceiro livro, “Literatura Gauchesca: Do Cancioneiro Popular à Modernidade”, também pela Editora da UCS. Em 2009, em coedição entre a Editora da UCS e a Editora Movimento, publica “Tradição, Modernidade, Regionalidade”, fruto de seu trabalho de pós-doutorado realizado na PUC no mesmo ano. As atividades acadêmicas relacionadas ao curso de Letras da UCS lhe ocupam atualmente grande parte do tempo, uma vez que ministra quatro disciplinas. Na graduação, Lisana é professora nas disciplinas de Teoria da Poesia, Teoria da Narrativa e Introdução à Literatura Portuguesa. No mestrado, ministra a disciplina de Literatura Regionalista Gauchesca no Cone Sul.
Nas horas de lazer, Lisana dedica-se ao cultivo dos prazeres culturais e também ao cultivo das amizades. Gosta de encontrar com as amigas em happy hours nos cafés literários e bistrôs da cidade, e de receber amigos em casa ou mesmo na fazenda em Criúva. Dividida de forma harmoniosa entre o urbano e o rural, aprecia tanto passar temporadas no campo quanto os atrativos inerentes a um shopping center. Pratica natação e ginástica em academia, para também não descuidar do bem-estar físico. Cita, entre outros, alguns autores de sua preferência, como o recentemente laureado com o Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa (“Conversa na Catedral’ é um dos livros dele que a marcou); Julio Cortázar (“O Jogo da Amarelinha”); Gabriel García Márquez (“Cem Anos de Solidão”); Umberto Eco (todos até “O Nome da Rosa”). Aprecia música de vários tipos e cinema, especialmente o europeu. Viajar é outro de seus hobbies preferidos, ao lado do marido Paulo, com quem mantém perenemente acesa a chama pelo encantamento produzido pela busca do conhecimento e do senso estético.

 

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