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LADO B

Enviado em 04/06/2010

Loraine Slomp Giron:

Uma Usina Humana de Conhecimento

Por Marcos Kirst

Professora dedica meio século de vida à pesquisa, à leitura e à produção cultural na região da Serra Gaúcha, portando no currículo mais de 20 livros publicados e 180 artigos assinados. Em meio aos livros e ao apego aos filhos
e netos, faz da busca pelo saber a motivação de sua existência

O frio que volta a habitar as paisagens da Serra Gaúcha parece trazer, junto com as baixas temperaturas, uma intensificação do burburinho que caracteriza as ruas centrais de Caxias do Sul. Automóveis e pessoas circulam aparentemente mais rápidos, sugerindo que a aceleração do movimento contribua para a produção do calor que todos buscam após o cumprimento de seus afazeres. Em meio a esse cenário, um singelo portão de ferro conduz o visitante a uma escadaria que leva a um verdadeiro oásis de aconchego e introspecção encravado bem no miolo da maior cidade do interior do Rio Grande do Sul. Quem segue por este caminho, atendendo ao convite de uma das historiadoras mais profícuas e respeitadas da região, ingressa em um santuário erigido à incessante busca intelectual pelo conhecimento, composto entre as paredes, as prateleiras, os livros e os objetos de pesquisa de Loraine Slomp Giron.
Os dois principais ambientes da casa são aquecidos pelo trabalho incessante de um split que se encarrega de expulsar da mente o desconforto eventual causado pelo frio, deixando o caminho livre para o cérebro dedicar-se ao que realmente interessa: os encaminhamentos de mais uma pesquisa (ou de várias delas, que costumam ser desenvolvidas concomitantemente) que vai resultar em tese acadêmica e em livro publicado. Os livros já são mais de duas dezenas, Loraine sequer faz questão de recordar o número exato, ao mesmo tempo em que vai presenteando o repórter com exemplares de alguns de seus mais recentes trabalhos: “Presença Africana na Serra Gaúcha: Subsídios” (2009); “História da Imigração Italiana no Rio Grande do Sul” (2007, em colaboração com Vânia Herédia) e “100 Anos de Imprensa Regional: 1897-1997” (2004, em colaboração com Kenia Pozenato).

A cessão de três exemplares ao repórter não altera em nada a população de livros que habitam os dois cômodos (sala e escritório) nos quais a historiadora passa a maior parte de seus dias quando não está desenvolvendo pesquisas de campo ou ministrando aulas na Universidade de Caxias do Sul. Conforme um censo feito mentalmente a partir de uma olhada geral às paredes repletas de obras, acotoveladas em fileiras duplas nas estantes que as decoram, Loraine chega à cifra de oito mil títulos reunidos ao longo de sua longeva carreira de consumidora e produtora de cultura. “Os livros são a minha paixão. Comecei a ler aos quatro anos de idade e nunca mais parei. Sou viciada”, confessa a professora.
Não é por acaso que Loraine Slomp Giron dedica sua carreira de pesquisadora (que já perfaz meio século de atividades) aos temas que envolvem a questão da colonização da Serra Gaúcha. Ela é uma caxiense nascida no interior e que, desde muito pequena, teve as atenções voltadas à necessidade de buscar compreender os elementos que faziam seu mundo ser da forma como era: as pessoas, os costumes, os hábitos, as nuances da fala, os afazeres, as motivações. Loraine é a irmã do meio entre o trio de filhas do casal Primo Slomp e Dejanira Carloto Slomp, tendo nascido em 9 de agosto de 1936. Na época, a família residia na localidade de Forqueta (hoje distrito), “quando tudo aquilo ainda era colônia, mesmo nas proximidades da estação de trem, onde ficava a nossa casa”, recorda.
As recordações daquela época giram em torno do trabalho, uma constante na vida dos descendentes de imigrantes que envolvia também as crianças e absorvia a infância. “Minha mãe era dona-de-casa e meu pai trabalhava no comércio, tendo sido um dos fundadores da Cooperativa Vinícola Forqueta”, relata Loraine. Brincava-se pouco, uma vez que os filhos, conforme o costume, seguiam os pais no trabalho desde cedo. Nas raras horas de folga, a pequena Loraine, juntamente com um primo e uma empregada da casa, apreciava receber lições da irmã mais velha, que já freqüentava a escola. “Eu desejava saber também tudo aquilo que minha irmã já sabia. Tanto é que foi por meio dela que eu acabei me alfabetizando precocemente”, explica.
Já no início da década de 40, a família mudou-se para a zona central de Caxias do Sul e, aos seis anos de idade, Loraine começou a freqüentar as aulas no Colégio São José. Foi nessa época que teve início o seu encantamento pela leitura, uma vez que havia muitos livros em casa ao seu alcance, e aqueles objetos exerciam sobre ela uma atração irresistível. “Meu pai era um leitor voraz e foi ele quem abriu para mim as portas para os livros”, recorda a pesquisadora, que teve sua iniciação na leitura devorando enciclopédias como a clássica Tesouro da Juventude e a Enciclopédia Prática Jackson, que leu “de A a Z”. Na sequência vieram as obras de Monteiro Lobato e de Erico Verissimo, aplainando a estrada pela qual nunca mais pararia de ler.
Terminado o ginásio em Caxias do Sul, Loraine foi a Porto Alegre cursar o científico (que na época correspondia ao atual ensino médio), como aluna interna do Colégio Bom Conselho. Na sequência, ingressou no curso de História e Geografia da Pontifícia Universidade Católica (PUC), na qual graduou-se. Foi também na Capital do Estado que conheceu aquele que viria a ser seu marido, Raul Antônio Giron, com quem se casaria em 1958. Os dois filhos do casal vieram em seguida: Luis Antônio Giron, nascido em 1959 (jornalista que reside e trabalha em São Paulo, na revista Época) e Felipe Giron, nascido em 1962, diretor da Cooperativa Vinícola Forqueta.
Recém-formada e recém-casada, Loraine retornou para Caxias do Sul no ano de 1960, época em que ainda eram raras as pessoas com formação em curso superior no país. “Havia uma grande carência de professores para ministrar aulas nos cursos secundários e fui logo chamada para dar aulas no Colégio São Carlos. No ano seguinte, já fui convidada para integrar o corpo docente da Faculdade de Filosofia da Universidade de Caxias do Sul”, relembra a professora. A partir daí, começa uma historia de vida que vai se mesclando entre o ensino em sala de aula, as pesquisas sobre os temas referentes à imigração e às questões da colônia na Serra Gaúcha, o desenvolvimento de pesquisas e a produção de livros e artigos científicos (estes últimos já somam mais de 180, conforme os cálculos da pesquisadora).
 

O currículo da formação acadêmica da historiadora é extenso e fala por si. Após a licenciatura em História e Geografia pela PUC/RS, Loraine obteve o título de Mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) em 1985 e graduou-se Doutora em Ciências Sociais pela PUC de São Paulo em 1989. É professora titular na Universidade de Caxias do Sul nos cursos de graduação e pós-graduação, desenvolvendo atividades enquanto docente e pesquisadora do Departamento de História e Geografia. A imigração italiana e os colonos italianos no Rio Grande do Sul têm sido os principais focos de suas pesquisas ao longo de toda a sua carreira.
As pesquisas desenvolvidas em trabalho solo ou em parcerias com outros colegas são o fio condutor de toda a atua­ção de Loraine Slomp Giron nessas suas cinco décadas ininterruptas dedicadas à produção cultural e à democratização do conhecimento. Defronte ao computador instalado no escritório e mergulhada em meio aos livros, Loraine administra o andamento de diversos trabalhos de pesquisa ao mesmo tempo, cada um deles em um estágio diferente de produção. No momento, ela se dedica a cinco deles: uma pesquisa sobre imigração e escravidão e uma cartilha a respeito da questão dos negros na Serra Gaúcha estão em fase de finalização. Recentemente concluídos e prontos para virem a público estão dois trabalhos realizados em parceria com a pesquisadora e historiadora Kenia Pozenato: “Retórica e Violência: A base dos discursos nos Jornais do Rio Grande do Sul” e “Mudanças Tecnológicas na Região da Colônia”. Como ficar parada ou diminuir o ritmo são conceitos que não participam de seus propósitos atuais de vida, a professora já engatou outra pesquisa, também girando em torno da questão da relação entre os brancos e a escravidão na região.
Fissurada por tecnologia da computação, Loraine administra com destreza o computador e toda a parafernália que o envolve e circunda, como scanners, impressoras, programas de texto (“acompanhei todas as versões do Word desde o início até a mais recente”, revela) e de criação de gráficos e planilhas como Corel, Photoshop e outros. “Sou multimídia. Fiquei radiante de felicidade quando surgiu o computador e pude abandonar a máquina de escrever, o que fiz sem nenhuma pena”, complementa. Dedicar-se ao trabalho é a atividade que mais a absorve em seus dias. Para tanto, é comum levantar-se da cama de madrugada (“às vezes às 3h, às vezes às 4h, outras às 5h, mas jamais depois das 6h”) e colocar as mãos à obra – ou seja, ao teclado do computador. “Sou matutina; tomo o café da manhã e vou para o computador. Quando clareia o dia, saio para fazer uma hora de caminhada”, informa. Se chove, faz uma hora de exercícios em casa mesmo.
Quando não está na UCS ministrando aulas ou pesquisando, ou em viagens ao exterior ministrando palestras e participando de ciclos de debates e estudos, Loraine fica mesmo é em casa escrevendo ou lendo. As leituras acontecem normalmente na sala/biblioteca aquecida, contígua ao escritório/biblioteca, onde as confortáveis poltronas e a meia-luz criam um ambiente propício para a introspecção que envolve o ato de ler. Sempre sob o olhar atento de um busto do compositor Ludwig van Beethoven, que guarda o ambiente no alto de uma das estantes, próximo a um violino “aposentado” que lhe rendeu lições de música ainda na infância. Eclética, gosta de ler de tudo quando não está dedicada aos livros referentes aos assuntos de suas pesquisas. Para relaxar, consegue abrir espaço para a leitura de livros policiais e romances em geral como os de Paul Auster e outros. “Mas o que aprecio mesmo são livros sobre filosofia e política”, ressalta.
Apesar de apreciar a música clássica de Beethoven, Bach, Chopin, Liszt, e Haendel e Villa-Lobos, sabe também apreciar a música popular. “Há momentos para escutar cada tipo de música. Também nisso sou eclética”, afirma. De mente e espírito abertos para o novo, como deve ser a alma de uma pesquisadora, Loraine expande seu ecletismo também para a área dos gostos cinematográficos. “E O Vento Levou” é um dos clássicos que marcaram suas lembranças, da mesma forma como o desenho animado “A Branca-de-Neve”, de Walt Disney. “Gostei muito de ‘Avatar’, de James Cameron, devido à inovação tecnológica que apresentou. Achei que o filme foi injustiçado no Oscar”, reflete.
Mas além dos livros, das aulas, das pesquisas, do trabalho e do cotidiano dedicado à cultura, Loraine encontra tempo para se dedicar ao que realmente, hoje em dia, mais aprecia: a companhia dos quatro netos. Giulia, Lorena, Jerônimo e Heloísa compõem o quarteto de netos com os quais está constantemente interagindo e compartilhando conhecimentos entre mundos e gerações. Para o bem não só dela, mas também de toda uma comunidade que continua saboreando os frutos do trabalho de uma mente proativa em busca constante pela ampliação do saber.
 

 

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