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LADO B

Enviado em 11/11/2010

Luis Fernando Zanini:

De Menino Serelepe a Executivo de Sucesso

Por Marcos Kirst

A trajetória do diretor regional do Grupo RBS na Serra Gaúcha tem início no interior de Jaguari, onde um menino elétrico, filho de pedreiro e dona-de-casa, se encantava com o dom da oratória e começava a trilhar um caminho que o conduziria à construção de uma singular história de vida

Luis Fernando Velly Zanini é um homem prático. Prático e organizado. Prático, organizado e muito ativo (na infância, era tido como “serelepe”). Prático, organizado, ativo e comunicativo. Essas características integram sua personalidade desde que ele se conhece por gente e vêm sendo as principais ferramentas que o auxiliam na pavimentação de uma reconhecida carreira de sucesso, moldada ao longo das últimas décadas em vários municípios gaúchos.
Timoneiro das empresas pertencentes ao Grupo RBS na Serra Gaúcha, Zanini, que mora em Caxias do Sul desde 1993, já tem seu nome ligado à marca na região e virou sinônimo de competência, dedicação e qualidade. Seu mergulho no cotidiano de Caxias e região e seu envolvimento com a comunidade foram oficialmente reconhecidos e chancelados com a outorga do título de Cidadão Caxiense pela Câmara de Vereadores, em 2008.
Zanini recebeu a reportagem da revista Acontece numa manhã de terça-feira em sua sala na sede do jornal Pioneiro, às vésperas de embarcar em uma viagem de 15 dias de férias pela Europa, junto com a esposa, Haydée, com quem está casado há 33 anos. A entrevista foi interrompida poucas vezes por telefonemas da secretária para resolver questões referentes aos encaminhamentos profissionais da empresa durante sua ausência e outros direcionados aos preparativos da viagem. Todos atendidos com cortesia e despachados rápida e objetivamente. Zanini está acostumado a pensar rápido, a tomar decisões e a delegar tarefas.
Dono de uma memória prodigiosa, tem na ponta da língua as datas e os fatos relativos à sua própria biografia, passando quase a impressão de que “fez a lição de casa” sobre sua vida nos dias que antecederam a entrevista. Quando um raro branco lhe toma a memória, não perde tempo: abre a gaveta, puxa para fora a coleção de carteiras de trabalho que pontuam sua dinâmica carreira profissional e encontra os dados que estavam faltando. Organizado e prático.
“Prático”, aliás, era um dos apelidos que recebera de um tio quando ainda era criança morando com os pais em Jaguari, no interior do Estado. Zanini nasceu em 2 de agosto de 1949, filho do pedreiro Victorio Zanini (nascido em 1897) e da costureira Alzira Velly Zanini (nascida em 1911), ambos já falecidos. As irmãs Olga, 74 anos (meia-irmã, filha de seu pai), e Maria Helena, 66, ainda compartilham com ele, quando se encontram, as lembranças de uma infância intensa, trabalhosa e feliz no interior do Estado.
Luis Fernando conhece o significado da palavra “trabalho” desde os seis anos de idade, quando, depois do meio-dia, tinha a missão diária de pegar uma marmita que a mãe preparava e levar o almoço até o local onde o pai estava trabalhando no momento. “O interior de Jaguari é muito rico, há grandes propriedades de terras e os fazendeiros precisam dos serviços dos pedreiros para erguer construções de todos os tipos. O pai passava semanas nesses lugares trabalhando de sol a sol e não tinha tempo de vir para casa almoçar com a família. Eu ia até lá levar a comida e já ficava durante a tarde, ajudando ele no serviço”, recorda Zanini.
A infância ficou marcada por uma mescla de atividades práticas e brincadeiras típicas de guri. “Eu tinha de me desvencilhar de tarefas domésticas, depois dos estudos, como alimentar os porcos e as galinhas, capinar, encher a talha de água, trazer lenha para dentro de casa, ajudar a passar sulfato nos figos e nas parreiras etc. Minha mãe exigia que eu fizesse as lições de casa durante o dia, antes do anoitecer, enquanto houvesse luz natural, pois a energia elétrica só chegou lá em casa muito mais tarde. Sou do tempo em que melancia e melão eram frutas que davam no verão e laranja e bergamota, no inverno. A gente se situava no tempo por coisas como essas”, recorda.
Zanini afirma ter sido um menino muito elétrico e ativo, pois sempre fazia todas as coisas com gosto, com motivação e empenho (características que o definem até hoje). “Eu era um diabinho. Um tio me apelidou de ‘prático’ e minha mãe sofria comigo. Ela chaveava o portão que dava acesso à rua para garantir que eu ficasse em casa até terminar todos os deveres. Mas quando eu via meus amigos e primos, já no meio da tarde, se reunindo num campinho para jogar futebol, eu pulava a cerca e ia me juntar a eles”, relata, divertido.
Por volta de 1960, com cerca de 11 anos de idade, Zanini ficou impressionado com a figura de um padre jesuíta que apareceu na cidade, participando das Missões, que eram e ainda são ações desenvolvidas junto às comunidades católicas da região, proferindo palestras e realizando encontros com as famílias. “Aquele padre falava e se comunicava muito bem, com uma facilidade incrível e arrebatadora. Fiquei encantado pela oratória dele e aquilo me marcou”, confessa o executivo da comunicação que, entre outros atributos, também marca as pessoas hoje em dia pela facilidade com que se expressa em público.
Zanini estudou até a quarta série em uma escola pública em Jaguari e depois fez a quinta série no Seminário Nossa Senhora Aparecida, em Ivorá. Quando chegou o momento de ingressar na primeira série ginasial, mudou-se para a cidade de Santa Maria, para ser interno no Seminário São José. Mas ficou pouco tempo. Na metade do ano, desistiu, por não aguentar o ritmo das rezas e do processo metódico da vida religiosa. “Sou católico, ainda hoje vou à missa com regularidade, mas aquilo não era para mim”, revela. E retornou para Jaguari, onde então dividiu o tempo entre os estudos para concluir o ginásio e o início de sua carreira de trabalho.
Em Jaguari, o jovem Zanini exerceu diversas atividades: trabalhou como entregador de telegramas, balconista em loja de ferragens e, por fim, empregou-se na Companhia Construtora Nacional, que estava fazendo a maior obra da cidade, uma hidráulica. Ali permaneceu por dois anos, até concluir o ginásio e mudar-se para o município de Canoas, aos 18 anos de idade, onde ingressou na Base Aérea, realizando um sonho que vinha acalentando desde o dia em que, ainda guri, vira o Sinval, filho de uma senhora que trabalhava para a sua avó em Jaguari, aparecer fardado como sargento da Força Aérea Brasileira.
Tudo indicava que nascia ali uma promissora carreira militar que só foi interrompida pelas artimanhas do Destino. Mergulhado no cotidiano da caserna, Zanini logo fez concurso para cabo e assumiu a função de estafeta de subcomandante, sendo taifeiro, apto a realizar serviços de apoio dentro do quartel. Em seguida, prestou concurso para oficial, foi aprovado e só não seguiu para a escola preparatória devido a um lance azarado (ou, talvez, afortunado) de futebol. “Eu gostava de jogar bola, era bom goleiro. Mas naquele dia estava jogando fora da minha posição habitual e arrebentei o menisco. Tive de fazer cirurgia e aí desisti da Aeronáutica”, recorda.
Alem do acidente, outro motivo consolidou a decisão de deixar a Base Aérea naquele ano de 1973: o falecimento de seu pai, em 30 de março. Nessa época, Zanini já estava na metade do curso de Administração de Empresas, que frequentava na Faculdade São Judas Tadeu, em Porto Alegre, e foi aprovado em uma seleção para trabalhar na área de planejamento industrial na empresa Massey Ferguson do Brasil, na região Metropolitana. “Eu morava com um tio em Porto Alegre e tinha um ritmo muito louco de estudos e trabalho. Eu chegava em casa a uma da manhã e me levantava às cinco. Ao todo, em percursos de ônibus, eu fazia 60 quilômetros por dia entre trabalho, faculdade e casa”, contabiliza.
O trabalho de conclusão de curso levou Zanini a coordenar um grupo de atividades na Olvebra, onde recebeu um convite para trabalhar. “Foi o primeiro grande convite de trabalho que recebi devido a meus méritos próprios”, recorda o executivo. Atuando diretamente no processo de importação de maquinário para a empresa no Rio Grande do Sul, Zanini adquiriu tal experiência no ramo que isso o credenciou a, em 1976, receber convite para ingressar nas fileiras do Grupo RBS, de Maurício Sirotsky Sobrinho. “A Zero Hora havia importado uma máquina, mas a legislação de importação havia mudado naquela época e eu fui indicado para ingressar no grupo com a missão primeira de fazer o projeto de aquisição da máquina rotativa a partir das novas regras”, revela. “Em agosto de 1976, ingressei na RBS. Aliás, todos os grandes momentos em minha vida aconteceram no mês de agosto, a começar pelo meu nascimento. Para mim, agosto não tem nada a ver com desgosto, muito pelo contrário”, brinca Zanini.
A partir deste ponto, a carreira de Zanini se transforma em uma agitadíssima estrada de desafios que vão sendo aceitos e cumpridos (quase sempre superados) um a um. Ainda pela RBS, participou de grandes projetos editoriais e transferiu-se para Santa Catarina com a missão de ajudar a fundar a RBS TV naquele estado. Retornou e, em função de um profundo processo de reestruturação da empresa, foi demitido em outubro de 1979. “Fui então para a empresa Caldas Júnior, devidamente autorizado pela RBS. Mas a empresa já estava em processo falimentar e não permaneci ali muito tempo, saindo em 1980, no dia de meu aniversário”, recorda.
Dali, Zanini ingressou no mundo da publicidade, trabalhando em uma agência em Porto Alegre até janeiro de 1981, quando recebeu convite para trabalhar na TV Studios, a TVS (que posteriormente se transformou em SBT, de Silvio Santos), em Porto Alegre. “Entrei em janeiro de 1982 na TVS, fui o primeiro executivo a trabalhar para o SBT em Porto Alegre, e saí em outubro de 1983”, contabiliza, sem ter de consultar nenhum dado em suas carteiras de trabalho. Inquieto e prático, como sempre, saiu dali e assumiu o posto de gerente comercial da TV Pampa, na Capital do Estado. “Foi nessa época que me encontrei com o Maurício Sirotsky em um evento no Auditório Araújo Vianna, quando ele comentou que desejava que eu voltasse a trabalhar na RBS. Isso se concretizaria logo adiante, não antes de eu sair da Pampa e trabalhar até fevereiro de 1985 na área de vendas da Lojas Sensação, em Porto Alegre”, revela.
Zanini retornou em 1985 ao Grupo RBS na condição de gerente comercial da RBS TV Pelotas e da Rádio Atlântida FM. Em maio de 1986, veio pela primeira vez a Caxias, assumir o posto de gerente comercial da RBS TV daqui. Em outubro de 1987, assumiu novo posto no grupo, na condição de executivo da RBS TV Bagé. “Isso tudo me permitiu assumir o posto de gerente executivo da RBS TV Santa Cruz do Sul, em janeiro de 1989, onde permaneci até retornar a Caxias em 10 de fevereiro de 1993, quando o Grupo RBS adquiriu o jornal Pioneiro, que eu vim gerenciar”, recorda.
No ano de 2001, Zanini assumiu o cargo de gerente-geral da RBS Mídias de Caxias do Sul, passando a responder pela gestão operacional não só do jornal Pioneiro, mas também da RBS TV Caxias e da Atlântida FM na cidade. Desde 2008, suas funções foram ampliadas para toda a região da Serra Gaúcha, e Zanini hoje desempenha a função de diretor regional da RBS na região de Caxias. No mesmo ano, recebia em Caxias o título de Cidadão Caxiense, em reconhecimento a seu envolvimento com as questões da comunidade local. Entre 1999 e 2007, atuou também como professor no curso de Administração de empresas da Universidade de Caxias do Sul, compartilhando o conhecimento adquirido durante sua trajetória. Em 2000, dedicou-se a fazer um curso de especialização em gestão empresarial no reconhecido Kellog Institute, em Chicago (EUA), aprimorando seus conhecimentos.
Paralelamente aos compromissos profissionais e ao envolvimento comunitário, Zanini caracteriza-se também por fazer desdobrar-se o tempo de seus dias, sabendo ser um homem de família dedicado e presente. Casou-se em 17 de setembro de 1977 com Haydée, em Porto Alegre, com quem tem as filhas Carolina, nascida em 18 de fevereiro de 1979, e Vitória, nascida em 18 de novembro de 1983. Carolina é a mãe de Victor Zanini Posenatto, o neto de Zanini, nascido em 28 de janeiro de 1998, que fez uma verdadeira revolução na vida do avô.
“A chegada do Victor na nossa família acarretou uma amplitude de visões em nossa casa, na qual, até então, eu só convivia com mulheres. A partir dele, mudou tudo, desde o processo de comunicação até o de negociação familiar” revela o avô-coruja, que não se contém em confessar que desempenha com competência a máxima de que “a função principal de um avô é estragar os netos”, conforme brinca. Se estragar o neto, vai ser só devido às doses inesgotáveis de amor e atenção que lhe dedica, a ponto de ser chamado carinhosamente por ele de “Vô Fofo”.
Zanini acorda antes das sete horas da manhã, assiste ao programa “Bom-Dia Rio Grande” pela RBS TV, escuta os noticiários das rádios São Francisco e Caxias e lê o jornal Pioneiro enquanto toma o café da manhã. Antes de se dirigir ao jornal Pioneiro e dar início à jornada de trabalho, faz uma caminhada de meia hora pelo bairro onde mora.
Gosta de dedicar o tempo livre à família e à casa, que construiu durante dois anos da forma como ele e Haydée sempre sonharam. Fissurado por animais de estimação, aproveitou o extenso pátio para construir um canil, onde habitam as seis cadelas cujos nomes ele sabe na ponta da língua: Aretha, Kyria, Channel, Chloé, Catarina e Sofia. Tem ainda o Freddy e a Naomi, os gatos, parceiros da Shana, a gatinha de 17 anos que morreu recentemente.
“Nos finais de semana, acordo, leio o jornal, vou ao canil, solto os cachorros e faço uma faxina geral no local. Escovo os cachorros, faço um chimarrão e, normalmente, preparo um churrasco”, revela. Zanini é famoso entre os amigos pelos churrascos que prepara e oferece e pelo seu “Risoto Jaguari”, que Haydée tradicionalmente prepara para toda a equipe de funcionários que trabalha em cada edição da Feijoada do Pulita. Junto com a esposa, compartilha também a paixão pelas orquídeas. “Comprei um terreninho no interior de Flores da Cunha, onde, aos poucos, vou construindo um refúgio para aproveitar na minha aposentadoria. Está nos planos fazer um orquidário lá, e erguer algumas obras. Vou recuperar o meu dom de pedreiro, que aprendi com meu pai, na minha infância”, confessa.
Proativo como é, no entanto, Zanini parece distante do dia em que vai conseguir não estar envolvido diariamente na correria típica dos executivos do mundo em que vive e atua. “Não sei como será o futuro, mas não consigo me enxergar quieto”, confessa. Mesmo assim, guarda consigo, como lema de vida, uma frase que escutou de Maurício Sirotsky Sobrinho: “Nunca deixe de sonhar; o sonho é o fato mais importante da realidade”. É por meio da concretização de seus sonhos que Zanini vem dando sua parcela de contribuição para a transformação positiva da realidade na comunidade regional. O executivo soube perfeitamente canalizar as energias do menino serelepe na construção de uma biografia pessoal e profissional mesclada à comunidade em que atua.
 

 

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