LADO B
Enviado em 11/05/2011
Maria de Lurdes Fontana Grison:
A Fé como Combustível na Vocação de Transformar Vidas
Por Marcos Kirst
Presidente da Fundação de Assistência Social (FAS) dedica a vida a auxiliar na libertação das pessoas a partir da obtenção do conhecimento
Quem escutar com atenção a história de vida de Maria de Lurdes Fontana Grison, presidente da Fundação de Assistência Social (FAS) de Caxias do Sul, poderá perceber que os momentos mais marcantes de sua trajetória são pontuados pela ocorrência de insights, termo importado do inglês mas de uso corrente na psicologia, usado para definir o processo de compreensão repentina de algum processo psíquico interno. Na esfera religiosa, acontecimentos dessa natureza costumam ser caracterizados como epifanias, que evocam uma experiência semelhante, porém, revestida com um caráter luminoso e de revelação, e que, em outros momentos, também se aplica à riqueza das experiências que Maria de Lurdes vivenciou em sua jornada pessoal sempre envolvida com o auxílio ao processo de desenvolvimento de seus semelhantes.
Um desses insights, talvez o mais significativo de todos, ocorreu quando Maria de Lurdes, aos 21 anos de idade, recém casada e há poucos meses estabelecida definitivamente em Caxias do Sul (ela é natural de São Marcos), decidiu participar de um encontro de movimentos de Cursilho da Igreja Católica. Os Cursilhos consistem em reuniões destinadas a orientar os católicos adultos leigos no sentido da reflexão sobre os fatos fundamentais da fé cristã e das consequências práticas que dela decorrem para o comportamento do indivíduo e suas relações com a comunidade. Criada em uma família católica praticante, a espiritualidade e a religião sempre foram elementos fundamentais na formação de Maria de Lurdes e seus oito irmãos, filhos do casal de comerciantes são-marquenses Evaristo e Ancila Fontoura.
Apesar da fé e da intimidade que possuía com o conteúdo bíblico desde que se conhecia por gente, foi naquela ocasião que, ao ler as parábolas do Filho Pródigo e da Ovelha Perdida (ambas no livro de Lucas, capítulo 15, no Novo Testamento), que subitamente Maria de Lurdes teve um insight em relação ao verdadeiro perfil de Deus. “Tive uma revelação de que Deus é amor. Meus olhos foram abertos para a verdadeira face de Deus, que estabeleceu os Dez Mandamentos não para nos vigiar e nos castigar a partir da quebra de algum deles, mas sim como orientações para que tenhamos uma vida plena e feliz. A leitura do Evangelho nos mostra claramente o Deus Amor, e me dei conta de que estamos aqui neste mundo para amarmos, sermos amados e sermos felizes. Descobri o sentido da minha vida. Percebi que eu viera ao mundo com a missão de ajudar as pessoas a perceberem isso, porque Deus liberta”, explica Maria de Lurdes, na sala a partir da qual, desde 2005, preside as atividades da FAS.
Nascida em 1º de junho de 1955, Maria de Lurdes guarda na lembrança imagens vívidas de uma infância plena de atividades e circunstâncias que pontuavam uma sadia vida ao ar livre, típica do interior gaúcho e de uma época em que computadores e existência virtual não compunham sequer os mais remotos voos da imaginação. “Meus pais administravam um magazine, também conhecida como loja de secos e molhados, e vendiam de tudo. Lembro bem que o açúcar mascavo fazia parte de nossa dieta, bem como os pirulitos e as balas puxa-puxa. Subíamos em árvores, pegávamos frutas no pé, brincávamos de casinha, de cinco-marias. Jogávamos peteca, pulávamos sapata (amarelinha) e andávamos muito de carrinho de lomba”, recorda, com brilho no olhar, elencando brincadeiras típicas daquela época que, para a maioria das crianças de hoje, precisariam de um dicionário para explicar do que se tratam.
Os estudos do primeiro grau foram realizados no Colégio São José, em São Marcos, e seus contatos com Caxias do Sul começaram a se estreitar a partir do momento em que decidiu cursar o segundo grau no então Colégio Estadual Duque de Caxias, que depois se transformaria no Instituto Estadual Cristóvão de Mendoza, onde cursou o Magistério. “Eu tinha de pegar o ônibus em São Marcos às seis da manhã para vir a Caxias. A viagem era demorada, mas repleta de acontecimentos, uma vez que o ônibus parava a cada dez minutos para que embarcassem pessoas carregando galinhas, salame etc”, recorda, divertida.
Apaixonada desde cedo pelo processo de ensino e educação, e por sentir-se útil ensinando as pessoas por meio do repasse de conhecimento (“o conhecimento é o caminho para a libertação pessoal” é seu mantra desde então), Maria de Lurdes não teve dúvidas em optar, em 1975, por fazer vestibular para Pedagogia na Universidade de Caxias do Sul, profissão em que se formaria quatro anos mais tarde. Em maio de 1975, se casaria com o namorado da juventude, que conhecera ainda em São Marcos, Luiz Antônio Grison, com quem mais tarde viria a ter os filhos Giovana e Eduardo, hoje respectivamente com 28 e 25 anos de idade. A partir da formatura, deu início à carreira de educadora, passando por diversas instituições conceituadas de ensino em Caxias do Sul, como o Colégio Madre Imilda, o Colégio do Carmo (onde atuou como orientadora educacional), a Escola Alexandre Zattera e a Escola Estadual Maguary. Nesta última, teve a oportunidade de vivenciar o desafio de trabalhar com alfabetização, que lhe rendeu outra experiência importante na esfera dos insights.
“Marcava-me muito, durante o processo de alfabetização, o momento em que o aluno descobria que acabara de adquirir a capacidade de ler. Aquele insight da descoberta, que depende do processo individual de cada aluno, de acordo com seu próprio momento, era um fenômeno maravilhoso, que me emocionava muito, especialmente por saber que eu era responsável por aquilo”, recorda Maria de Lurdes. Mais uma vez, era a educadora auxiliando as pessoas em seu entorno a se libertarem e a se transformarem por meio da obtenção da ferramenta do conhecimento. Na mesma época, vivenciou também experiências transformadoras atuando como professora de ensino religioso no Centro de Estudos Supletivos (CES) de Caxias do Sul. “A cadeira, destinada a adultos, era optativa, mas, mesmo assim, muitas pessoas se inscreviam. Foi ali que percebi que as pessoas buscam a espiritualidade e possuem necessidade de serem orientadas espiritualmente. Elas buscam um sentido para suas vidas, estão atrás de valores que as orientem”, analisa a educadora.
No início dos anos 90, Maria de Lurdes ampliou sua área pessoal de atuação na esfera do auxílio às pessoas que precisam de orientações para redefinir os rumos de suas vidas, e foi ao natural que recebeu um convite para unir esforços no processo de recuperação de dependentes químicos. Acabou ajudando a fundar entidades como a Cruz Vermelha em Caxias do Sul e a Pastoral de Apoio ao Toxicômano Nova Aurora (Patna). “Eu recordo que meu pai sofria muito e ficava compungido quando via uma pessoa alcoolizada. Acho que acabei herdando esse sentimento dele, e acabei realizando, com o meu trabalho, uma vocação que no fundo ele também possuía”, analisa Maria de Lurdes.
O trabalho que Maria de Lurdes desenvolveu junto à Patna ganhou tamanha projeção que não foi surpresa a sugestão de seu nome para a presidência da FAS, em 2005, quando José Ivo Sartori assumiu seu primeiro mandato à frente da prefeitura de Caxias do Sul. “Foi o frei Jaime Bettega quem indicou o meu nome, e me senti abençoada por Deus por mais esse desafio, pois o encarei como se Ele estivesse ampliando a minha área de ação, uma vez que, na FAS, atendemos às pessoas em diversas fases de suas existências, desde crianças e adolescentes, passando por jovens, adultos, velhos e famílias inteiras”, explica. Foi a partir dessa percepção que Maria de Lurdes recebeu a inspiração para a frase que emoldura uma das paredes de sua sala de trabalho: “Trabalhar na FAS é mais do que um emprego, é uma missão”.
Nesse ponto, chega-se em outro momento em que o insight volta a assumir um papel importante na história da vida de Maria de Lurdes Fontana Grison. Tendo como um de seus nortes a concepção de que o conhecimento é o mais poderoso instrumento para a libertação (e consequentemente o progresso e o desenvolvimento) do ser humano, Maria de Lurdes ampliou o conceito que normalmente restringe as atividades de entidades como a FAS ao mero assistencialismo, propondo um raio de ação mais amplo, ousado, permanente e transformador. “Sabemos que a maior pobreza que pode afligir uma pessoa é a espiritual e a do conhecimento. Libertando-se disso, a pessoa se transforma e fica apta a administrar sua própria vida, a virar um cidadão de fato”, analisa a presidente da entidade. O momento em que, por meio do conhecimento adquirido, a pessoa se transforma e se liberta, gera outro insight tão significativo e carregado de emoção como aqueles que Maria de Lurdes presenciava na sala de aula, ao alfabetizar crianças. “Nossa meta é a emancipação do cidadão e, sempre que isso ocorre, é uma batalha vencida contra a miséria e a exclusão”, afirma.
Todo o envolvimento com essas metas requer de Maria de Lurdes uma rotina espartana, organizada de maneira a permitir-lhe dar conta das atividades profissionais, pessoais, familiares e comunitárias nas quais está permanentemente envolvida. O despertar se dá ainda antes das sete horas da manhã, quando faz uma oração e procede à leitura do Evangelho. O cultivo da espiritualidade é elemento fundamental no cotidiano dela e dos familiares, a tal ponto que possuem um pequeno oratório em casa, ambiente que convida à reflexão e ao contato com Deus. Após o café da manhã regado à leitura de alguns jornais, Maria de Lurdes dirige-se às atividades decorrentes de suas responsabilidades à frente da FAS.
Durante a semana, os almoços ocorrem normalmente em casa, reunindo todos os quatro integrantes da família, uma vez que os filhos Giovana e Eduardo ainda residem com os pais. “Cozinhamos em casa, nós mesmos. Nos finais de semana, meu marido e eu produzimos os molhos e pré-encaminhamos o cardápio da semana. É mais saudável, mais barato e a alimentação fica mais balanceada, dessa forma”, revela Maria de Lurdes. Nas quartas e quintas-feiras à noite, ela e o marido reúnem-se alternadamente nas casas de outros casais de amigos, unindo aos encontros a oportunidade para fazer reflexões e debates sobre assuntos religiosos. Nos finais de semana, quando não ficam na cidade e recebem amigos para jantar, viajam para São Marcos, onde continuam residindo familiares dela e do marido. “Minha mãe está com 91 anos de idade e minha sogra com 90”, conta. As noites dos domingos são reservadas para o comparecimento à missa. A renovação do fôlego espiritual é o combustível para que Maria de Lurdes permaneça seguindo a trilha que traçou para si mesma, mesclando sua própria existência ao ato de dedicar-se a transformar para melhor as existências de quem a cerca.
