LADO B
Enviado em 13/08/2010
Mauro Bellini:
Tacadas Certeiras Conduzindo os Rumos da Vida
Por Marcos Kirst
Vice-presidente do Conselho de Administração da Marcopolo revela que o segredo para o sucesso é saber manter a mente aberta para as oportunidades e para as novidades que se apresentam pelo caminho
O quase meio século de vida do empresário Mauro Bellini pode ser caracterizado por uma sucessão de tacadas certeiras que, como consequência direta, resultaram em sua escolha, em 2009, para assumir a cadeira de vice-presidente do Conselho de Administração da Marcopolo S.A., empresa caxiense líder nacional em fabricação de carrocerias de ônibus. Filho mais novo de Paulo Bellini (atual presidente do Conselho e um dos fundadores da empresa), Mauro tem estado presente de forma mais direta nos domínios brasileiros da Marcopolo especialmente nos últimos quatro anos, desde que retornou definitivamente da África do Sul, onde comandava o braço africano do grupo. Graduado em dois cursos universitários e com a experiência profissional acumulada em décadas de dedicação ao trabalho, seu nome vem despontando no meio empresarial como sinônimo de competência e comprometimento, características que estão no DNA da empresa desde a sua criação, há 61 anos.
Mauro Gilberto Bellini nasceu no dia 28 de fevereiro de 1961, em Caxias do Sul, uma data que ele próprio considera interessante por ser justamente no único mês do ano que, a cada quatro anos, ganha o acréscimo de um dia no calendário. “Se eu tivesse nascido num ano bissexto, em 29 de fevereiro, hoje eu poderia dizer que estava apenas com uns 15 anos de idade, ainda na adolescência”, brinca o empresário. A adolescência de verdade, no entanto, ganha vida somente na memória na forma de resgates nostálgicos dos tempos em que, juntamente com o irmão mais velho, James Eduardo Bellini, subia a rua Visconde de Pelotas a pé, no bairro Pio X, em dias gélidos, a caminho da aula no Colégio Presidente Vargas, onde cursava o primeiro grau.
“James é apenas um ano mais velho do que eu, e sempre estudamos no mesmo colégio, o que nos tornou muito próximos. Era muito positivo isso, porque, dessa forma, tínhamos sempre amigos em dobro”, recorda Mauro. Os dois filhos do casal Paulo Pedro Bellini e Maria Célia Festugatto Bellini eram também parceiros nas partidas de futebol que gostavam de jogar nas horas vagas, no time que formaram com outros amigos moradores do bairro Pio X. “Nos domingos pela manhã já era tradição: pegávamos um caminhãozinho e íamos jogar bola na Terceira Légua, por exemplo”, revela. “Fomos crescendo e passamos a jogar próximo ao campo do Juventude, com a turma da torcida do clube. Mas nessa mesma época, na adolescência, você vai crescendo e vai ficando mais tempo nas festas no sábado à noite, o que torna mais difícil acordar cedo no domingo pela manhã para jogar bola, e vai-se abandonando aos poucos o esporte”, complementa.
Seguindo a máxima de que em Caxias do Sul os jovens só saíam de casa para casar ou para fazer faculdade, Mauro seguiu os passos do irmão mais velho e decidiu-se pela segunda opção, o que o conduziu, aos 16 anos de idade, para Porto Alegre, onde passara no vestibular da PUC para o curso de Engenharia Mecânica. A opção derivava de um crescente interesse pelo campo da Matemática e pelos assuntos em geral ligados à área, uma vez que, ainda em Caxias do Sul, aos 15 anos de idade, enquanto ainda cursava o segundo grau, inscreveu-se em um curso de Torneiro Mecânico no Senai, dando os primeiros passos para a sua formação profissional.
Desta forma, logo cedo começou a aprender a organizar o tempo e a dividir tarefas, uma vez que precisava administrar as aulas do segundo grau (que cursava no então Colégio do Carmo) com as do curso de Torneiro Mecânico. Nas férias, aproveitou para fazer um estágio na empresa Evaristo de Antoni, localizada, na época, na região da atual Via Vêneto, onde começou a colocar em prática o aprendizado adquirido no curso de Senai. Também em Porto Alegre, durante a época de estudante universitário, aprendeu lições de vida e de convivência que somente aquela experiência é capaz de proporcionar.
“Morávamos, meu irmão e eu (James cursava Engenharia Elétrica), em uma típica república de estudantes, em um apartamento composto por mais quatro estudantes universitários, todos caxienses. Dividíamos em dois quartos, cada um composto por um beliche mais uma terceira cama, e havia todos os tipos de pessoas: o mais estudioso, o mais ‘caxias entre os caxienses’, o que fazia mais festa, o que mais aprontava etc”, relembra o empresário. Ao ingressar no terceiro ano do curso, Mauro percebeu que não era exatamente Engenharia Mecânica o curso que desejava para si em sua vida, e decidiu prestar vestibular para outro curso. Acabou passando também em Administração na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), e passou a levar os dois cursos concomitantemente.
Foi nessa época, por sinal, que Mauro ressalta ter percebido, devido a essa experiência, a realidade da distorção do ensino no Brasil. “Para conseguir dar conta dos dois cursos em paralelo, era comum eu ter de sair mais cedo da última aula na Ufrgs, por exemplo, pegar um ônibus e chegar um pouco atrasado para a primeira aula na PUC. Porém, uma coisa me chamava a atenção: na PUC, com ensino pago, os estudantes lotavam os ônibus para irem às aulas. Na Ufrgs, universidade federal subsidiada com verbas públicas, os estacionamentos estavam lotados com os automóveis dos alunos. Ou seja: ficava claro para quem quisesse ver que as vagas federais eram conquistadas por estudantes que tinham tido acesso a um ensino mais completo no primeiro e segundo graus e que podiam ter se dedicado somente aos estudos durante a infância e à adolescência”, analisa.
A formatura no curso de Engenharia Mecânica aconteceu no início da década de 1980 (“creio que em 1983”, tenta recordar-se) e, em seguida, Mauro começou a trabalhar em uma empresa paulista de consultoria no ramo de produtividade. “Fiquei cerca de um ano em São Paulo, trabalhando na Capital e em cidades como Franca, Maringá e outras. Ficava 15 dias em cada local dando consultoria e depois voltava, de folga, para Porto Alegre”, explica. Foi nessa época, inclusive, que começou a desenvolver uma habilidade pela qual até hoje é conhecido por seus amigos: a de churrasqueiro de mão cheia. “Nos finais de semana que eu passava em São Paulo, era tradicional os colegas consultores se reunirem para um churrasco. Havia gente de todas as partes do país e, como o gaúcho era eu, a turma decidia que cabia a mim preparar o churrasco. Como não neguei fogo, acabei me especializando mesmo”, revela Mauro Bellini.
Dedicado como costuma ser em tudo o que faz, Bellini é mesmo um churrasqueiro completo, que atua em todas as pontas do processo, desde a escolha e compra da carne, passando pelo preparo do fogo, espetando, salgando, assando e servindo. “Só não gosto de lavar a louça depois”, confessa. Picanha, costela e salsichão são os integrantes tradicionais de seu cardápio. Mas não se engane quem pensar que as habilidades do churrasqueiro em questão são apenas básicas.
Durante muitos anos, ele vivenciou uma verdadeira competição dos espetos com um amigo churrasqueiro que morava em Porto Alegre, para a alegria e o deleite de sua roda de relações. “Ele começou sofisticando o churrasco dele, acrescentando uma cebola no espeto, e eu revidei, em outra ocasião, com a novidade de uma batata-doce envolta em papel alumínio na brasa. Depois, ele veio com lombinho de porco e eu respondi com queijo no espeto. Ele veio com o abacaxi e eu trouxe a picanha virada, na qual ele nunca me superou”, informa. Hoje em dia, no entanto, Mauro se contenta mesmo com um tradicional churrasco de costela, picanha e salsichão, mas que ninguém o provoque...
De volta definitivamente a Porto Alegre, Mauro terminou o curso de Administração de Empresas por volta de 1987, período em que começou também a trabalhar em um braço que a Marcopolo possuía na Capital gaúcha, chamada Casa do Ônibus. Permaneceu ali por meio ano e retornou a Caxias do Sul, onde deu início a um processo de imersão em todos os setores da Marcopolo, que durou dois anos. “Eu ficava cerca de três meses acompanhando e conhecendo cada departamento da empresa e, terminado esse período, comecei a trabalhar no setor de Exportação da Marcopolo, já que possuía boas noções de inglês, por ter vivido meio ano nos Estados Unidos ainda durante a época em que era estudante universitário”, explica Bellini.
Em 1996, a vida de Mauro dá uma guinada em sintonia com as novas fronteiras de negócios que a Marcopolo começou a desbravar. Com o fim do embargo da ONU à África do Sul, que recém começava a abandonar na prática a política do aparthaid, empresários sul-africanos procuraram a Marcopolo, interessados em adquirir ônibus que tivessem a direção instalada no lado direito, uma vez que as rodovias de lá adotam o sentido inglês. “Viajei algumas vezes para lá a fim de analisar a existência de parceiros que pudessem oferecer assistência técnica aos nossos produtos, mas no fim decidimos nós mesmos instalarmos uma empresa de representação que fizesse as vendas e também o pós-vendas”, revela Bellini.
Foi assim que, assumindo a frente do projeto, Mauro residiu em Johannesburg, na África do Sul, por uma década inteira, de 1996 até 2006, quando retornou à Marcopolo, justamente para acompanhar de perto a questão da sucessão dos controladores da Marcopolo e seus herdeiros. “A Marcopolo é hoje uma empresa profissionalizada, de capital aberto, e os herdeiros dos fundadores não atuam na área executiva, que está sob os cuidados de um CEO. Os herdeiros atuam, sim, junto ao Conselho de Administração”, explica Mauro Bellini. Para tanto, o executivo dedicou-se, entre os anos de 2007 e 2008, a um curso de Governança Corporativa no IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa), a fim de se preparar para assumir os desafios que essa sua nova fase profissional lhe apresenta.
Dividindo-se entre Caxias do Sul e Porto Alegre, Mauro Bellini aproveita os raros momentos de folga para se dedicar a um passatempo que adotou quando ainda residia na África do Sul, o golfe. “Recebi um panfleto, certo dia, quando estava parado em um semáforo, que indicava aulas de golfe, esporte muito popular na África do Sul. Interessei-me e me matriculei nas aulas, até por uma questão estratégica, pois a maioria dos nossos clientes lá praticava o esporte e era uma maneira de me aproximar deles e fazer negócios”, conta Bellini. De volta ao Brasil, Bellini trouxe consigo o hábito e, hoje, não só pratica o esporte como disputa o Campeonato Estadual, é diretor-técnico da Federação Gaúcha de Golfe e é árbitro certificado pela R&A Golf, a “FIFA do golfe”, com sede na Escócia. “Fiz lá um curso de arbitragem, fui aprovado e hoje sou o melhor árbitro gaúcho de golfe. Também posso ser o pior, pois sou o único no Estado”, diverte-se.
As longas horas de espera em aeroportos e as várias viagens de avião que compõem o cotidiano de sua agenda são aproveitadas para dedicar-se à leitura de livros, hábito do qual não se distancia. Especialmente agora, que acaba de adquirir um iPad, o revolucionário aparelho eletrônico da Apple que permite baixar livros e jornais via internet. “Isso diminuiu em cerca de três quilos o peso de minha bagagem de mão em aeroportos, sem falar na praticidade da leitura. Já começa a ser uma febre nos aeroportos ao redor do mundo”, analisa. Bellini pauta suas leituras a partir das listas de mais vendidos em várias publicações. “É uma forma de eu ampliar os horizontes de minhas leituras. Assim, conheço áreas pelas quais meus interesses a princípio não me levariam, e leio de tudo, tanto em termos de ficção quanto livros de negócios”, revela. Também no quesito lazer, assim como em todos os aspectos de sua vida, Bellini opta por tacadas certeiras.
