LADO B
Enviado em 14/04/2011
Nilton Scotti:
O Gentleman da Cultura e do Teatro de Caxias do Sul
Por Marcos Kirst
É por meio da arte que se obtém pistas para melhor compreender os meandros da alma humana. Cada um que decide empreender essa busca por conhecimento (e, consequentemente, por autoconhecimento) elege uma ou algumas das manifestações artísticas que melhor falam à sua alma, surgindo assim a paixão por determinada arte, que vai ser alimentada ao longo da vida na forma de produção (o que cabe aos artistas) e/ou de consumo e apreciação (o que cabe aos aficionados). Os amplos e refinadamente decorados ambientes da residência do caxiense Nilton Carlos Scotti, 80 anos, acolhem em suas paredes objetos representativos de todas as manifestações artísticas desenvolvidas pela humanidade. Porém, uma delas em especial é a que povoa o coração do proprietário e grande parte das prateleiras especialmente concebidas para abrigar o melhor já produzido pela chamada sétima arte, sua paixão desde que se conhece por gente e desde a primeira vez em que colocou os pés e os olhos dentro de um cinema, ainda jovem, em Caxias do Sul.
Mais de dois mil títulos de filmes coabitam nas estantes dos quartos e salas da morada, metodicamente separados em ordem alfabética por diretores, construindo cuidadosas coleções que obedecem à determinação de Scotti em cultivá-las e alimentá-las para que se apresentem o mais completas possível. “Allen, Woody”, é um dos primeiros papeizinhos que indicam, em um dos andares iniciais das estantes, uma das várias preferências do cinéfilo. Daí para adiante, é possível passear por obras de diretores de todas as nacionalidades imagináveis, sem discriminação de gêneros. A coleção teve início anos atrás com a aquisição dos dois primeiros filmes: “O Anjo Azul” (de Josef von Sternberg) e “Il Gattopardo” (de Luchino Visconti), conforme vivamente recorda.
Atualmente, Scotti vem se dedicando a garimpar DVDs (a coleção é composta unicamente por cópias oficiais, adquiridas em lojas) de filmes do início do século passado. “Estou tendo dificuldades em encontrar o derradeiro filme de Charles Chaplin”, revela. Para auxiliar na composição da coleção, Scotti conta com o auxílio de uma rede de familiares e amigos que se dedicam a suprir sua interminável e retroalimentável lista de buscas por títulos. A lista é constantemente incrementada por meio das consultas feitas a livros que elencam filmes e obras de cineastas, que repousam nas estantes ao lado dos filmes. No dia da entrevista para a revista Acontece, uma pilha de 40 novos filmes se equilibrava sobre um banquinho, à espera da devida classificação e instalação no lugar devido, de acordo com o diretor. “Recebi ontem. Foram enviados pelos meus filhos que moram em Porto Alegre”, explicou Scotti, que já está substituindo as papeletas com nomes de cineastas por pequenas divisórias de madeira, que haverão de incrementar ainda mais a coleção.
O tempo para assistir a todo esse universo cinematográfico obviamente é curto. “Hoje em dia sou mais um colecionador do que um espectador”, confessa Scotti. Ele revela que acaba se dedicando mais a acompanhar a programação de filmes clássicos exibidos pelo canal Telecine Cult, da tevê a cabo, no qual, no final das contas, aprecia o ato de rever ótimos filmes que marcaram sua longa trajetória de cidadão encantado, fomentador e produtor de arte. Essa relação teve início ainda na infância em Caxias do Sul e acabou pautando toda a sua biografia, posicionando o nome de Nilton Scotti como um dos mais ativos e importantes produtores culturais na área do teatro em Caxias do Sul nos anos 60 e 70.
Caxiense nascido em 28 de junho de 1930, Nilton Carlos Scotti é filho de Álvaro Antônio Scotti e Thereza Fasolli Scotti, ambos já falecidos. Filho mais velho do casal, tem um irmão 13 anos mais moço, Álvaro Luiz Scotti. O pai desenvolvia atividades no comércio em uma Caxias que, na primeira metade do século passado, ia se destacando enquanto região próspera no Estado e também no país. Scotti recorda vivamente das ruas sem calçamento que alternavam poeira e barro nos dias secos e chuvosos e elenca o calçamento da Avenida Júlio de Castilhos como um dos marcos do progresso que impulsionava a cidade na época. Desde menino, já apreciava a leitura e, nesse amplo universo, crescia o interesse por peças teatrais.
Depois de concluir os estudos primário e ginasial em Caxias, nos colégios São José e Carmo, Scotti mudou-se para Porto Alegre em 1944, aos 14 anos de idade, para cursar o então ensino científico na condição de interno no Colégio Rosário. “Sempre fui meio enjoado para comer e andei desmaiando. Por isso, me tiraram do internato e fui morar em uma pensão, o que me deu mais liberdade”, revela Scotti. Encantado com a efervescência cultural palpitante na capital do Estado, Scotti passou a dedicar essa liberdade a assistir a espetáculos de ópera, peças teatrais e cinemas, além das discussões intelectuais com os amigos nas mesas de bar, especialmente durante o período em que cursava a faculdade de Arquitetura na Ufrgs, onde ingressou em 1949. “O Barbeiro de Sevilha” e “Madame Butterfly” foram algumas das óperas que marcaram seus anos de formação, às quais assistiu acompanhado por uma tia solteirona, Marieta, que residia em Porto Alegre e iniciou o sobrinho no mundo das artes.
Scotti graduou-se em Arquitetura em 1956 e retornou a Caxias para dar início à sua vida profissional, porém, antes disso, aproveitou o período em Porto Alegre para enriquecer sua vivência artística, que se deu em várias frentes. Uma delas foi seu ingresso no Clube de Cinema, associação de cinéfilos fundada em 1948 na Capital (em atividade até hoje), que reunia amantes da sétima arte para exibir películas, promover mostras temáticas e debates culturais. Scotti chegou a atuar como projetista de filmes na entidade. Definitivamente inserido na atmosfera cultural e intelectual da cidade, ingressou na trupe do Teatro do Estudante do Rio Grande do Sul (criado em 1941 por deliberação da União Estadual dos Estudantes), pouco tempo depois da saída do ator José Lewgoy (1920 – 2003), no início da década de 50.
Ali, estreitou relações com atores como Walmor Chagas e Antônio Abujamra e com diretores como Fernando Peixoto. “No início, eu participava mais na parte de criação e restauração dos cenários. Porém, em certa ocasião, um ator faltou e eu subi ao palco para substituí-lo”, relata Scotti. A atuação convenceu e ele acabou conquistando um papel na peça “A Verdade de Cada Um”, de Pirandello, que o grupo montou em 1951. “Nesse espetáculo, dividi o palco com o Abujamra”, revela. A parceria com Abujamra faz com que os dois, juntamente com Fernando Peixoto e Armando Piazza Filho, decidam sair do Teatro do Estudante e fundem, em 1954, o Teatro Universitário, com o qual vão montar espetáculos como “O Marinheiro”, de Fernando Pessoa; “Feliz Viagem a Trenton”, de Thornton Wilder, “A Cantora Careca”, de Eugene Ionesco, e outros. Paulo José, então estudante de arquitetura, também uniu-se ao grupo.
No final da década de 50, já formado, Nilton Scotti decide retornar a Caxias do Sul e começa a trabalhar em um escritório de arquitetura. Habituado a uma vida cultural intensa, logo integrou-se à equipe responsável pela direção da Aliança Francesa em Caxias, que havia sido recentemente fundada (em 1955), e responsabilizou-se pela formação e condução de um grupo de teatro (o Atelier de Teatro) que marcou época na cidade, capitaneando a efervescência cultural regional. Garantindo a participação especial de nomes como Paulo José e Paulo César Pereio, Scotti montou e dirigiu em Caxias, pela Aliança Francesa, peças como a já citada “A Cantora Careca”; “Arsênico e Alfazema”; “Zôo de Cristal” (de Tennessee Williams) e as infantis “Pluft, O Fantasminha”, “Chapeuzinho Vermelho” e “O Cavalinho Azul”. Foi nessa época que surgiu uma jovem candidata a atriz em Caxias, que estreou atuando nas peças produzidas pela Aliança Francesa. “Praticamente fui eu quem colocou a Ítala Nandi no palco”, afirma Scotti.
O Atelier de Teatro da Aliança Francesa funcionou de 1958 até 1964, quando o golpe militar desferido no Brasil naquele ano precipitou o fim do grupo. “Tínhamos uma forte atuação política e social aliada à questão cultural, e tendíamos para a esquerda. Tivemos de nos recolher e aquilo terminou com o nosso sonho”, explica Scotti.
No entanto, paralelamente à questão do teatro, Nilton Scotti acalentava outros sonhos, entre eles, o de formar uma família, o que concretizou em 1961 ao casar-se com Rosemary Alice Spinato Scotti. Nascida em 1939 em Galópolis, por volta de 1954, aos 15 anos de idade, ela já chamava a atenção do garboso Nilton Scotti, nove anos mais velho. “Naquele ano, decidi comparecer ao baile das debutantes do Clube Recreio da Juventude para ver as moças. Coloquei uma gravatinha borboleta e fui lá. Vi aquela moça bonita dançando e fiquei de olho”, revela Scotti. O namoro começou alguns anos depois e, do casamento, vieram os três filhos do casal: Fábio, nascido em 1966; Márcio, em 1971, e Caio, em 1976. Rosemary, ceramicista e escultora de alta qualidade artística, faleceu em 2009 após décadas de vida em comum com Nilton Scotti. Portadora de luz própria, ela possui assento eterno na história da Festa da Uva de Caxias do Sul, uma vez que foi escolhida princesa na edição de 1958.
Nilton Scotti tem também parte de sua biografia ligada ao ensino, uma vez que integrou os quadros da Universidade de Caxias do Sul desde a sua fundação, em 1967. Naquela época, ele era professor de Artes Cênicas e de Desenho na Escola de Belas Artes, ligada à Prefeitura Municipal, uma das quatro instituições de ensino existentes na cidade que, unidas, formaram a base para o surgimento da UCS. Além de incentivar o teatro na instituição no início dos anos 80, Scotti acabou também assumindo a função de programador das grades de currículos no Departamento de Graduação da universidade, durante muitos anos, até aposentar-se, em 2005.
Mas “aposentar-se”, no dicionário particular de Nilton Scotti, não é uma expressão ligada ao ato de calçar pantufas e ficar em casa assistindo a filmes. Uma vida pautada pela participação ativa em atividades culturais não se resigna às imposições do tempo, o que faz com que ele permaneça presente e atuante dentro de seu círculo. No final do ano passado, recebeu da Academia Caxiense de Letras uma placa em homenagem pela contribuição que prestou à cultura caxiense ao longo de sua trajetória. Atualmente, frequenta diariamente os ambientes da Biblioteca Pública Municipal, onde se atualiza lendo os jornais e revistas (em casa, cultiva sua própria, extensa e farta biblioteca pessoal) e troca ideias sobre assuntos variados com quem tem o prazer de encontrá-lo.
Sua presença constante no local angariou-lhe amizade com os coordenadores do espaço, a tal ponto de ter partido dele a ideia de dirigir ao público adulto a segunda edição do projeto “Noite na Biblioteca”, realizado no dia 25 de fevereiro deste ano (a primeira edição, no ano passado, foi voltada a crianças e adolescentes). Mais de 50 pessoas participaram do evento, que resgatou o espírito dos antigos saraus literários, com várias atividades. Nilton Scotti declamou poemas e participou de uma das esquetes. Sempre bem-humorado, encanta pela biografia que porta, pela cultura que transpira, pelo cavalheirismo e gentileza com que trata a todos e pelo bom-humor sempre pronto a ser exercitado, como quando se despede do repórter aconselhando: “Não trabalhe muito. Trabalhar demais não dá dinheiro e, além disso, perde-se muito tempo”. O sorriso que acompanha a frase revela o tom de malícia do seu autor, que não deixa sair de cena o eterno homem de teatro e de artes.
