LADO B
Enviado em 07/02/2011
Nilva Randon:
O Coração como o Patrimônio Mais Valioso
Por Marcos Kirst
Dona Nilva Randon é proprietária de um bem muito valioso: um coração de ouro cujos quilates ainda são segredo. Sólido como é, alguns desconfiam de que seja, na verdade, de diamante. Até hoje, ninguém se arriscou a determinar suas dimensões ou aferir seu preço. No mercado, porém, é voz corrente que sua cotação na Bolsa de Valores Humanos é das mais elevadas entre os familiares, os amigos e a comunidade que a cerca. Dona Nilva construiu esse patrimônio dedicando-se, a vida toda, àquilo que ela melhor sabe fazer: agir de forma apaixonada, espontânea, verdadeira e dedicada em tudo a que se propõe. Os lucros que aufere desse investimento se materializam na forma de uma família sadia e unida, um casamento vencedor e sólido, o reconhecimento da comunidade e uma vida repleta de realizações e motivos para ser grata, o que ela definitivamente é, em todas as horas de seus dias.
Muito mais do que a esposa de Raul Randon, um dos empresários de maior expressão na Serra Gaúcha e no país, Dona Nilva possui uma luz própria decorrente de uma atuação comunitária cuja trajetória remonta a muito tempo antes de vir a conhecer aquele jovem e esbelto rapaz trajado em uniforme militar que viria a ser seu marido. Desde muito novinha, já participava ativamente das atividades referentes à comunidade congregada na igreja do bairro Santa Catarina. Quando mais moça, integrava as equipes que organizavam as festas comunitárias e, inclusive, chegou a ajudar as freiras a ministrar aulas de catecismo durante um certo período, para a criançada. Em determinada época, quando faltou professora na escola do bairro, chegou a ser chamada para dar aulas durante um mês para os alunos da primeira série, tamanha a confiança que era depositada nela. “Não sei se aprenderam alguma coisa”, brinca Dona Nilva, com injustificada modéstia, recordando aqueles seus primeiros anos de vida em sua Caxias do Sul natal, ainda tão mais próxima de uma pequena cidade interiorana, e tão diferente da metrópole urbana que é hoje, passadas algumas décadas.
Dona Nilva nasceu em 3 de novembro de 1934, em uma típica casa colonial situada onde hoje se configuram os bairros Pio X e São José. “Na época, aquilo ali ainda era colônia e distante do centro”, assinala ela, recordando que era a oitava entre os dez filhos do casal David D’Agostini e Rosa Mazzotti D’Agostini. Seus avós vieram da Itália, da região de Beluno, e se instalaram por aqui no início do século passado. “Meu pai era um homem bem pra frente, como se dizia na época sobre aquelas pessoas que possuíam perfil empreendedor, e fazia questão que todos os filhos estudassem. Já minha mãe precisava de mim para ajudá-la no serviço de casa, e assim eu dividia meu tempo entre os estudos, que eu adorava, e os trabalhos domésticos e da colônia”, recorda Dona Nilva. Ela saltava da cama cedo e ia ajudar em tarefas como debulhar milho e tirar o leite das vacas. “Ordenhei as vacas até mesmo na manhã do dia do meu casamento”, relembra ela, divertindo-se.
Mas Dona Nilva não reclama das eventuais dificuldades que enfrentou nos seus tempos de infância e juventude. Ao contrário, atribui a essas experiências a formação da base sólida de sua personalidade e evoca o passado com nostalgia carinhosa. Ela lembra que gostava muito de estudar e de ir às aulas: “Fiz o primeiro grau (que na época era até a quinta série) caprichado”, informa. A jovem Nilva estudou no Colégio Maguary até a quarta série, quando então “inventou” de unir-se às primas no internato de freiras que funcionava em Ana Rech, no prédio em que hoje está instalada a Clínica Professor Paulo Guedes. Não se adaptou e retornou a Caxias, finalizando os estudos em outra escola, no bairro Santa Catarina.
Foi nessa época que a jovem moça, entre seus 14 e 15 anos de idade, apaixonou-se pelo mundo da leitura e da escrita. “Eu lia de tudo, começando pelos livros de Monteiro Lobato e depois romances gerais de ficção”, revela. O hábito a acompanha até hoje, quando dá preferência à leitura de biografias, especialmente de empresários e de pessoas que conhece, mas também reserva espaço para romances e livros de autoria de integrantes de sua ampla rede de amizades. Entre os ficcionais, cita Lya Luft como uma autora a quem recorre com frequência. Ao lado da leitura, a jovem estudante Nilva também cultivava o prazer da escrita, sobressaindo-se na escola nas atividades de fazer ditados, escrever cartas e produzir redações. Matemática também a encantava, e até hoje utiliza no dia a dia o aprendizado daquela época, que sempre lhe foi útil.
Essa dedicação aos estudos e à busca constante pelo conhecimento (e, consequentemente, pelo aperfeiçoamento pessoal) é uma característica que pauta a biografia de Dona Nilva desde aquela época e jamais foi abandonada. Tanto é que, anos mais tarde, já casada e com família, cursou dois anos de inglês no Yázigi e afirma defender-se bem na língua, além de dominar bem o italiano que, claro, aprendeu em casa. “As prendas domésticas eu cresci aprendendo com minha mãe, já que, na visão de mundo dela, aquilo era fundamental para arranjar bom marido, e eu arranjei um”, complementa, com o bom humor que lhe é habitual.
Pois o nome do futuro bom marido começou a rondar os pensamentos de Nilva durante uma festa comunitária do bairro Santa Catarina, em cuja organização ela estava naturalmente envolvida, até porque, naquela época, seu pai fazia parte da diretoria da igreja. “A festa era grande, envolvia comunidades de vários bairros diferentes, e eu fazia parte de um grupo de moças de ação católica, onde conheci duas que viriam a ser minhas futuras cunhadas, irmãs do Raul”, recorda. “A gente fez amizade e elas começavam a insistir, dizendo, meio de brincadeira mas também a sério, que eu deveria conhecer e namorar o irmão delas, o Raul. Acabei conhecendo ele pessoalmente em Flores da Cunha, para onde fomos, um grande grupo de jovens, assistir a um jogo local de futebol, em 1948. Ele estava em uniforme de milico, e ali começou um flerte”, relata Dona Nilva.
O flerte inicial transformou-se em namoro sério e oficial a partir de 1950, quando Nilva já estava com 16 anos de idade e Raul com 21. O casamento aconteceu seis anos depois, em 1956, na Igreja de Santa Catarina. “O namoro serviu para dissiparmos as dúvidas eventuais que um poderia ter em relação ao outro. Mas parece que foi o destino quem nos aproximou. Desde o início, gostei da figura dele: alto, com um olhar profundo. Ele era magro naquela época. Eu, nem tanto. Ou seja, desde o início, não enganei ninguém”, brinca, novamente, rindo. “Mas nunca tivemos uma briga sequer. Nunca houve entre nós isso de terminar e voltar”, salienta. O Destino acertando, sem sombra de dúvida.
A partir de 1959, começaram a vir os filhos, que povoariam a casa e capitalizariam a maior parcela das atenções de Dona Nilva dali para a frente, durante algumas décadas. O primeiro foi David, nascido em 3 de setembro daquele ano, e que agora responde pela presidência do grupo de empresas criado pelo pai. Roseli veio na sequência, em 5 de dezembro de 1960 e, em 18 de maio de 1962 (Dona Nilva não precisa parar para pensar sequer um segundo ao recordar as datas dos nascimentos dos filhos), nasceu Alexandre. Depois de “uma trégua de três anos”, conforme ela mesma define, nasceu Maurien Helena, em 19 de agosto de 1965. Em 8 de dezembro de 1976, ainda nasceria Daniel, complementando a turma de cinco filhos do casal Nilva e Raul Randon.
Mas paralelamente às atribuições e exigências decorrentes do desempenho do papel de mãe, Dona Nilva também sempre encontrou tempo e disposição para atuar em projetos comunitários, resgatando suas próprias origens como cidadã plenamente integrada às demandas da comunidade na qual se insere. Já no ano de 1966, com a quarta filha, Maurien, recém com um aninho de idade, o casal Nilva e Raul Randon ingressou nas fileiras do Rotary Club, envolvendo-se desde o início nas atividades propostas. “Nos engajamos desde o começo e sempre fui muito ativa e participante nas campanhas benemerentes e em toda a programação que envolve as esposas dos rotarianos”, explica Dona Nilva.
Com um currículo como esse, foi de forma natural que recebeu e aceitou o convite para integrar a diretoria do Banco da Mulher, em 1997, entidade criada por iniciativa do Conselho da Mulher Empresária/Executiva da Câmara de Indústria, Comércio e Serviços de Caxias do Sul (CIC). Voltada às mulheres e homens empreendedores da região, a entidade apóia e promove o desenvolvimento dos profissionais que praticam alguma atividade produtiva, ou que desejem ingressar no mercado de trabalho com alguma atividade, concedendo faixas especiais de crédito. Membro-fundadora, Dona Nilva presidiu a entidade por duas gestões consecutivas entre os anos de 2003 e 2007, integrando até hoje os quadros da diretoria.
Desde que pela primeira vez pisou os pés em território fora das fronteiras brasileiras, em 1958, em uma viagem feita à Argentina, Dona Nilva tomou gosto pelos passeios para o exterior e, sempre que pode, acompanha o marido em suas viagens a negócios ou propõe passeios de férias para conhecer outros povos e outras culturas. “Sempre incentivei meus filhos a que, quando tivessem oportunidade, viajassem, pois não basta estudar; é só viajando que a gente abre mesmo nossas mentes”, ressalta Dona Nilva.
Hoje em dia, quando não está envolvida com questões familiares decorrentes da participação no cotidiano dos filhos e filhas, genros e noras e dos 11 netos, ou quando não dedica atenções às demandas rotarianas, da Casa da Amizade e do Banco da Mulher, Dona Nilva obedece a uma rotina de tarefas sempre ligadas, de alguma forma, a seu aprimoramento pessoal. As aulas de violão que está fazendo, por exemplo, e que substituem os vários anos de estudo de teclado a que se dedicou no passado, mantêm aceso seu encanto pela música. “Sempre adorei cantar e gostei de ouvir música. Gosto também de tocar um pouco, e é por isso que estudo esses instrumentos”, revela Dona Nilva, que aprecia ouvir músicas italianas, gauchescas e clássicas. “Gosto de músicas que não ferem os ouvidos”, sentencia.
O dia de Dona Nilva começa cedo, às sete horas da manhã, apesar de ela se dizer “preguiçosa” para acordar, provavelmente por guardar ainda como referência os despertares madrugosos de seus tempos de menina na colônia, antes do raiar do sol. Ela e o marido tomam o café da manhã juntos, lendo e comentando as notícias do dia por meio dos jornais, especialmente o Pioneiro. “Leio as notícias e depois resolvo as palavras-cruzadas, que é um verdadeiro vício que tenho”, revela. Ainda pela manhã, coloca tênis e abrigo e se dirige até o salão de exercícios, onde, para manter a forma e a saúde, dedica-se, durante cerca de 40 minutos, três ou quatro dias por semana, à dança. “Levo um CD de tarantela e fico dançando sozinha. É o meu exercício”, explica.
À noite, quando o marido chega das empresas, traz consigo os exemplares do dia dos jornais Correio do Povo e O Sul, que ela então lê com atenção. Se não tem convidados para o jantar, ou algum evento social que lhe exija a presença, ou ainda se não está envolvida com filhos e netos, Dona Nilva “fica zanzando pela casa, inventando o que fazer”. Normalmente, lê, conversa com o marido ou fica organizando suas roupas, apesar de não se considerar vaidosa. Televisão assiste pouco, por perceber-se descontente com as novelas atuais. “Tira-se pouco proveito. Não há mais moral da história, e os vilões, os aproveitadores, se dão bem no final. Acho eu passam maus exemplos”, analisa. Diferentemente de sua própria história de vida, que serve como inspiração para qualquer pessoa que decida adotar como norte a grandeza e a riqueza do próprio coração.
